Londrina acaba de eleger duas mulheres para a legislatura que se inicia no próximo ano. Se compararmos com o último pleito municipal, quando elegemos três mulheres, todas elas muito bem votadas, houve um retrocesso. No entanto, se considerarmos que historicamente elegíamos uma mulher por vez, isto é um avanço. Mas ainda é muito pouco! As eleições de 2000, de fato, foram especiais do ponto de vista da participação de importantes lideranças femininas. Algo que, infelizmente, não se repete com muita frequência.
A despeito dos espaços que conquistamos, as instituições políticas formais, como os próprios partidos políticos, são ainda muito impermeáveis à participação das mulheres. A legislação que destina pelo menos 30% das vagas para candidaturas proporcionais a um dos sexos é de grande importância, porém convive com sérias limitações. Os partidos políticos, quase unanimemente, pouco favorecem a formação de lideranças femininas e pouco investem nas candidaturas das mulheres. Nem são obrigados a preencher a cota de candidaturas.
O eleitorado, por sua vez e em grande proporção, continua bebendo na fonte do patriarcalismo e desconfiando da capacidade das mulheres. Os homens portam ''naturalmente'' o status de vocacionados para a política - afinal não foram eles quem criaram a política, segundo nos apontam os estudos clássicos? Quanto às mulheres, ao contrário, participar ativamente da arena política sugere a negação de sua vocação, de seu destino ditado pela biologia, ''naturalmente'' preso à esfera doméstica. Portanto, disputar o espaço político é, para as mulheres, uma transgressão. Precisamos então questionar essas tradições, como aquela que diz que mulher não vota em mulher. Esta é uma construção discursiva, nos termos de Michel Foucault.
Simone de Beauvoir disse no ''O Segundo Sexo'' que era comum que lhes interpelassem nas discussões, dizendo-lhe ''você pensa assim porque é mulher''. Diante da pressuposição, presente nesta afirmação, de que o homem dispõe do conhecimento geral e a mulher apenas o conhecimento específico, Simone defendia-se dizendo ''penso assim porque é a verdade'', tentando, com isto, apagar qualquer marcador de diferença fundado no sexo.
Fazer uso da alteridade, falar de diferenças, é sempre um jogo de múltiplas faces. Entretanto, é indubitável a necessidade de radicalizarmos a democracia, incluindo os grupos sociais que foram historicamente excluídos. Precisamos de uma democracia que inclua as diferenças, dentre elas as de sexo. Isto exige maior representatividade política para mulheres.

SILVANA APARECIDA MARIANO é socióloga em Londrina e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp/Campinas

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