ESPAÇO ABERTO - A morte e as crianças
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de novembro de 2003
Vera Iaconelli 
No Dia de Finados cada grupo social se ocupa ou não em fazer algum tipo de ritual destinado a lembrar de pessoas falecidas. Cada religião, povo, família e pessoa em particular têm uma forma de pensar e lidar com a questão da morte. No entanto, é no contato com as crianças, com suas perguntas e aflições, que muitas vezes nos deparamos com a nossa dificuldade em tratar da questão da morte. Chega a ser desconcertante a forma direta com que as crianças se referem a um assunto que em nossa cultura é tratado como tabu.
Não conseguimos pensar sobre a nossa própria morte. É algo que acontecerá com os outros e assim vivemos como se nunca fosse nos alcançar. Essa é uma forma de lidarmos com a profunda angústia que a idéia de nossa finitude nos traz. Em nossa cultura, as coisas ficam até mais difíceis, pois o homem atual acredita que a morte é uma situação que a medicina tratará de erradicar. Ouvimos, a todo o momento, frases como ''se eu morrer...'', ao invés de ''quando eu morrer...''. Não há condicional para a morte, mas é um consolo fingir que haja.
Quando não podemos falar da morte, das perdas, ter rituais próprios e significativos, fica difícil fazer o luto. As crianças geralmente perguntam ''para onde foi a vovó?'' ou ''quando eu vou morrer?''. Ficamos paralisados. Se elas não podem ouvir que a morte nos acontece à revelia, não temos controle sobre ela, as pessoas nunca mais retornarão e que um dia também morreremos, fica difícil construir um espaço para chorar essas perdas e fazer o luto. Aliás, o espaço para o luto também deve ser criado para a morte de outras coisas: a separação dos pais, mudança de residência ou de escola, o fim da infância ou da vida escolar, enfim, infinitas outras perdas que vão ocorrendo ao longo da vida.
Se ficarmos muito aflitos diante da angústia dos filhos, é bom lembrar que prepará-los para viver não é fingir sobre temas espinhosos, mas ajudá-los a encará-los dentro das possibilidades de cada idade. Para não ultrapassarmos sua capacidade de compreensão devemos responder-lhes na medida do que for perguntado, deixando que o desenrolar da conversa parta deles. Não adianta querer consolá-los com subterfúgios e, se o fizermos, estaremos doutrinando nossos filhos a substituírem as emoções por ações. Podemos estar lhes ensinando, para aplacar a angústia, a usar a comida, a televisão, o consumo ou até mesmo as drogas (lícitas ou não), para dificultar a árdua tarefa de lidar com a dor.
Os rituais que nos servem para elaborar as perdas, que têm sido praticamente abolidos, devem incluir nossas crianças na medida do possível. É inaceitável que um grupo perca uma pessoa querida e o choro e os procedimentos (diferentes em cada comunidade: enterro, cremação, velório e missas) sejam escondidos dos pequenos. É muito penoso para a criança sentir tanta consternação, além de sua própria perda, ser tratada como alguém com quem não se deve falar sobre ''esses assuntos''. Viver emoções que não podem ser verbalizadas pode ser muito prejudicial e falar com liberdade ajuda a elaborar situações como essas.
Quem melhor do que os pais ou aqueles que cuidam, os que são admirados e passam confiança para ajudarem a enfrentar temas difíceis da nossa existência? Quem melhor do que as crianças para nos obrigarem a encarar nossos medos? É comum ouvirmos relatos de pessoas que estiveram numa situação com risco de morte e, após essa experiência, passaram a repensar o rumo de suas vidas. Falar sobre a morte é uma oportunidade importante para revalorizarmos a nossa existência, o nosso tempo, a nossa saúde, as pessoas a quem amamos, enfim, para podermos buscar um significado maior para as nossas vidas.
VERA IACONELLI é mestre em Psicologia pela USP, psicoterapeuta corporal biodinâmica de adultos e crianças e professora do curso de formação em Psicologia Biodinâmica do Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica


