No Dia de Finados muitos vão aos cemitérios para reverenciar seus mortos, enquanto outros permanecem em casa ou vão a agradáveis locais e cultuam recordações doces acerca daqueles que se foram. Eventualmente também lhes oferecem flores, muitos preferindo as cultivadas e não as cortadas, para não estimular o extermínio delas, e assim as preservam, até que cumpram o seu ciclo. Os ditos mortos (porque não há mortos) se desgostam com os choros e as manifestações de perda, e muito mais com os que desejam vingança, nos casos de assassinatos relacionados com eles ou casos em que certas pessoas foram culpadas pelo seu desenlace da vida terrena. Rememorar fatos tristes com dor raivosa traz de volta ao cenário das tragédias aqueles que morreram envolvidos nelas. Assim, eles não encontram sossego e têm mais dificuldade em elevar-se, porque são ''puxados'' para baixo pelos que os amam e que eles também amam ainda.
Mas a morte, o que é? Apenas uma passagem, como de alguém que adormece e, na manhã seguinte, acorda. Há casos, sim, de alguém que não sabe que morreu, tal a similaridade da vida aqui e ''lá''. Tenho um amigo que, ao levantar-se, olha para a cama. Se enxerga um duplo corpo, é porque morreu ele diz. O que pode não ser tão exato assim, porque há os que se desprendem mesmo em estado de vigília, e não estão mortos. Os conscientes viajam, vão longe, cavalgam as estrelas, e não são loucos. E há os que ''viajam'' em outro sentido e flutuam, delirantes. São os desconectados das coisas terrenas, o que pode não significar estarem ligados às coisas mais além.
As pessoas temem a morte porque não foram ensinadas a conhecer o que há além dessa cortina. Morte não existe, mas como não há nos dicionários convencionais outra palavra que defina essa transição de um estado de consciência para outro, diz-se que uma pessoa morreu. Na verdade o corpo físico perdeu função. Nada morre, porque o espírito vivifica e o invólucro carnal, os vegetais e os minerais, se transformam. Um tronco queimado converte-se em gás. A água não seca mas evapora-se e retorna. Os animais também compõem uma espécie de espírito coletivo, as plantas e os minerais pulsam, a Terra tem uma forma de sentimento. Melhor é não buscar traduzir isto literalmente, por via de referenciais conhecidos, porque ''há muita coisa mais, entre o Céu e a Terra, do que supõe a nossa vã filosofia''.
A morte não é uma tortura mas apenas uma continuidade da vida, só que num plano onde é um pouco mais expandida a possibilidade de entendimento. O que vivemos aqui, iremos viver no ''logo ali'', com os mesmos egos não dissipados, com as mesmas iras e paixões, com as mesmas virtudes, enfim com os mesmíssimos atributos, bons ou nem tanto. Levamos até nosso dinheiro mesquinho, só que não mais o temos mas o sentimos se sempre fomos obcecadamente apegados a ele. Aí será o inferno, com os egos e apegos fazendo o papel dos intitulados demônios. Nos casos de um ser muitíssimo evoluído espiritualmente e já liberto de karmas (não significando necessariamente um líder religioso ou um fiel entregue às beatitudes sistemáticas), este alçará vôo até às elevadas esferas e não mais retornará a este planeta.

WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

mockup