A natureza leva 500 anos para fazer um centímetro de solo. A enxurrada de uma chuva forte carrega para dentro de um rio, sem mata ciliar, muito mais do que isso em poucos minutos. Em outras palavras: milhares de anos de equilíbrio natural afogam-se, em instantes, nos mananciais que não possuem proteção em suas margens.
No Paraná, o majestoso rio Ivaí, carente de matas em suas margens, chega a jogar no Lago de Itaipú mais de 2 milhões de toneladas de sedimentos em um único ano. Para se ter uma idéia, mesmo em uma propriedade protegida, um hectare de soja perde 780 quilos de solo, por ano, com a erosão natural causada pelo vento e pela chuva. No Paraná, nas propriedades mal-protegidas, já não fossem suficientes as inúmeras motivações ambientais para protegê-las, a terra que se esvai também custa os olhos da cara. Assim, quem perde o solo rico e fértil, por motivos tão estúpidos quanto os de não se fazer mata ciliar, perde duas vezes.
A mata ciliar protege os rios, como os cílios protegem os olhos. Margeando rios, lagos e nascentes, ela é formada de árvores, arbustos, cipós, gramas, flores, frutos. As raízes desta vegetação nativa transformam o solo em uma espécie de esponja, que retém e filtra a água das chuvas. Assim, quanto mais exuberantes são essas matas, mais limpa é a água do rio. Na água menos turva, o sol penetra mais fundo. E, sua luz é a energia de que necessitam as plantas aquáticas para colocarem em marcha as cadeias alimentares que garantem a vida em nossos mananciais. Assim, também podemos dizer que quanto menos mata na margem, menos vida dentro do rio.
Entretanto, a mata ciliar não só impede que se perca. Ela também faz ganhar. Sabe-se, desde há muito, que em nascentes protegidas por vegetação natural, a água é mais abundante e de melhor qualidade. Da mesma forma, cada vez que a vegetação natural é suprimida, os lençóis subterrâneos tornam-se mais profundos e escassos.
Embora o Brasil detenha quase 12% da água potável do mundo, nosso Planeta é finito e finitos também são seus recursos naturais. A água é um deles. E, para a vida, disparado, o mais importante.
Dessa forma, ter mais água, e de melhor qualidade, manter o solo fértil e a exuberante vida aquática parece, como na maioria das vezes, ser uma questão de opção. Afinal, nesta matéria, depois de tantas constatações, só erra quem quer.
Entendendo isso, muitos agricultores paranaenses estão refazendo suas matas ciliares. Mesmo sabendo que perdem parte de sua área, eles recuam suas lavouras, e abandonam o pedaço de chão que antes levava a roça até na beira d'àgua, a fim de que a vegetação natural reapareça. Onde há pecuária, a cerca cumpre a função de distanciar os animais da área em recuperação. E, já tem gente comemorando o retorno da piscosidade do rio, o aumento do volume e limpeza da água e a nascente que voltou a jorrar mais forte.
Por tudo isso, neste 22 de março, Dia Internacional da Água, estimuladas pelas secretarias estaduais de Meio Ambiente e Agricultura, nossas 399 cidades irão plantar, simultaneamente, 1 milhão de árvores nativas, ao longo de rios, lagos e nascentes do Paraná. Neste dia, crianças, adultos e idosos, de todos os lugares, ao colocarem em pé uma árvore nativa, estarão erguendo uma espécie de bandeira em favor de uma natureza mais saudável. Afinal, a maneira mais inteligente de se preservar a água, é trazer de volta nossas matas ciliares.
Água é vida. E, nada é mais importante que a vida. Por isso, nada é mais importante que a água.
LUIZ EDUARDO CHEIDA é secretário do Meio Ambiente e de Recursos Hídricos do Paraná

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