Geralmente, a intolerância a qualquer tipo de coisa advém da abundância ou fartura da mesma na vida de uma pessoa. No entanto, no tocante à crença religiosa, creio que a conclusão seja totalmente inversa.

Nos tempos antigos, quando a intervenção divina, e a esta me refiro de forma geral sem a indicação de uma religião em si, se fazia por norma cogente na vida de uma família, com orações diurnas, participação em novenas e cultos, temor e reverência à vida eterna, respeito incondicional a opiniões de nossos ancestrais bem como demais situações, as discussões oriundas da opção religiosa ou até mesmo quanto à existência ou não de uma entidade superior eram praticamente nulas.

Após o decorrer dos tempos, com o acúmulo de trabalhos bem como face à democratização e expansão do acesso à informação, os hábitos religiosos passaram a ser criteriosamente estudados, questionados e por muitos abandonados, haja vista a ausência de comprovações técnicas de sua real "eficácia" na vida cotidiana do ser humano.

Entendo que a expansão do conhecimento e do acesso às informações são inerentes à evolução da espécie humana, no entanto, quando tal fato atinge os pilares basilares de formação do ser humano, em especial no que se refere à base religiosa, um sinal de extremo alerta deve ser ligado.

E é justamente tal excesso de senso crítico e ceticismo quanto às informações sem fontes comprovadas que torna a religião atual, seja qual for, enfraquecida e incrédula. Assim sendo, diante de tantos conhecimentos e dúvidas, novas bases de pensamentos vão sendo criadas e religiões são subdivididas a inúmeras espécies tendo por base o seu interlocutor e sua visão pessoal sobre a referido posição religiosa.

A religião como modelo base, portanto, é quebrada e fragmentada e, assim sendo, toda e qualquer opinião que não se coadune com aquele estabelecido pelo novo "doutrinador religioso" é marginalizada e até mesmo reconhecida como verdadeira heresia.

Inúmeras subteorias são criadas com a interpretação particular daquele que promove o novo segmento, com novas crenças e posições, sendo que, para fins de efetivamente se instalar na sociedade, dogmas antes existentes necessitam de crítica e julgamento, ocorrendo, por consequência, opiniões e até mesmo atitudes drásticas de intolerância em face à ordem anteriormente existente.

Para diminuir a intolerância sobre a religião, creio que nada novo deve ser aplicado, muito pelo contrário, devemos aplicar o antigo. Incentivar e reavivar as práticas que eram realizadas por nossos antepassados, colocando o temor e respeito à religião e aos seus princípios, seja ela qual for, como normas imperativas de conduta na vida humana, sem demais delongas quanto a sua real origem, existência ou amplitude.

Assim sendo, quando a cultura religiosa voltar a ser fundamentada única e exclusivamente pela fé e não por teses acadêmicas ou trabalhos científicos pautados em grandes e atuais doutrinas, cada qual respeitará a entidade superior com tamanha submissão e a tolerância para com opiniões que sejam dissonantes das nossas será uma simples consequência natural de tal "evolução retroativa" de condutas.

FERNANDO GARCIA ALGARTE FILHO é chefe da Secretaria dos Juizados Especiais de Apucarana

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