Cheguei a Londrina, vindo da Argentina, devido a um convite formulado por uma grande amiga brasileira para passar alguns dias de descanso e conhecer outra geografia. Eu tinha uma idéia formada de antemão. Sabia que poderia encontrar uma cidade moderna, jovem, localizada em um lugar privilegiado, em plena região agrícola, no coração de uma terra roxa muito fértil, que proporciona uma notável contribuição econômica e alimentícia ao Brasil.
A mitologia nos conta que o deus Jano tinha dois rostos: um olhava para o passado, o outro para o futuro. O Brasil nos mostra muito mais faces. E pude vê-las com toda clareza, numa tarde de domingo. Um domingo chuvoso que se constituía num passeio ao campo, para tomar um chá em companhia de alguns magníficos amigos brasileiros e umas excelentes tortas alemãs.
Ás 18h15, depois do encontro na casa de tortas alemãs, me ocorreu a necessidade de ir cumprimentar um estimado artista argentino, Osvaldo René, um talentoso músico ''chaqueÀo'', cantor e compositor que esse dia exibia seus dons na Associação Comunitária de Idosos de Londrina, na Vila Brasil.
Ao chegar, fiquei surpreendido: uma grande quantidade de carros estavam estacionados nas duas mãos da Rua Mar del Plata, frente ao nº 41. Além do mais, num terreno que deveria ser praia, funcionava como estacionamento lotado de veículos. Quando entrei no salão, minha surpresa foi maior: mais de 400 pessoas se encontravam num espaço fechado, com um fervor religioso. Alguns homens consumiam uma cerveja envolta num isopor para que o calor não a afetasse; as mulheres tomavam refrigerantes. A pista transbordava de bailarinos de todas as idades, condição econômica e social.
Era um encontro mágico onde me pareceu ver o espelho da integração do Brasil, onde a música era mais efetiva que o Mercosul como catalisador das expressões humanas. Não restava dúvidas que os participantes eram, na maioria, brasileiros, porém havia também algum argentino e, por que não, algum paraguaio, uruguaio ou boliviano com uma vontade enorme de dançar, de conhecer alguém do sexo oposto, de tomar uma cerveja com os amigos de todos os domingos?
Fazia muito tempo que não era testemunha de um fenômeno social como o que tive o privilégio de observar. Depois de permanecer um pouco naquele lugar, soube que o baile havia começado às 15 horas; hora incabível para um argentino que afirma conhecer bem as ''milongas'' de Buenos Aires.
País gratamente surpreendente o Brasil, onde se mesclam, sem problemas, distintas etnias, diferentes culturas. Onde as esperanças centralizavam-se num salão de baile, sem dissidências, com o único denominador comum da música, do shote, do samba, do tango e até de uma versão de ''O Sole Mío'' interpretada, entre outros instrumentos, com um acordeão e piano.
Como no belíssimo e comovedor filme ''O Baile'', de Ettore Scola, me encontrei em um chuvoso domingo de janeiro, com a vida expressa em todo seu magnífico esplendor, num salão de um bairro de Londrina.
EDGARDO ANDRÉS TOLOSA é promotor de seguros em Buenos Aires (Argentina)

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