Refiro-me à matéria publicada pela Folha de Londrina, edição de 14 de julho, intitulada ''Ginecologistas são campeões de assédio sexual''. Não obstante o repórter autor daquele texto certamente ter-se baseado em dados estatísticos que obteve, não posso deixar de manifestar minha preocupação com a forma que o assunto foi abordado, notadamente a partir do chamativo título.

Acredito que a sociedade organizada em geral, a exemplo do que ocorre com praticamente a totalidade da classe médica, deva obviamente se preocupar com a punição dos maus profissionais que desprezam a ética e cujas atitudes antiprofissionais são severamente apuradas e punidas disciplinarmente pelo Conselho Regional de Medicina (CRM).

Embora tristemente ocorram esses fatos, tais comportamentos lascivos seguramente não chegam a atingir senão uma mínima fração do número de profissionais atuando no mercado de trabalho atualmente, não se justificando, portanto, a chamada da dita matéria que taxou os ginecologistas de ''campeões'' ao sugerir frequência na prática do assédio. Bastaria, para uma investigação mais séria, o repórter procurar dados junto ao CRM do Paraná sobre o número de profissionais inscritos no conselho em confrontação com os efetivamente condenados por assédio sexual pelo órgão ou mesmo pela justiça.

Ademais, em um país onde o grau de escolaridade ainda é baixo e onde obviamente a desinformação e o preconceito são proporcionalmente muito mais perigosos à saúde pública e à integridade da população do que o ''campeonato de assédio sexual'' que supostamente incriminou os ginecologistas, acredito que o título da matéria, ora repudiado, só possa contribuir para o fomento do preconceito que, de resto, vitima milhares de mulheres em nosso país todos os anos, muitas delas esposas ou namoradas de homens que poderiam ser influenciados ainda mais pela abordagem dada ao tema.

Por outro lado, para uma classe ser denominada campeã de algo, mesmo que seja de um desvio psicológico tão grave, me parece que tal comportamento não deveria se limitar a uma exceção irrisória, que esperamos seja cada vez mais rara, pois tais desvios e deformidades psicológicas, conforme se infere dos noticiários, são recorrentes no ser humano em geral, não raro pertencente à chamada elite e nas mais diversas categorias profissionais. Mas, felizmente, para tratar esses e outros distúrbios é sempre bom saber que há um médico por perto.

OTÁVIO AUGUSTO GENTA é médico e chefe do serviço de Ginecologia e Obstetrícia da Santa Casa de Londrina

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