ESPAÇO ABERTO - A idolatria do ser
É consenso entre teólogos, pensadores cristãos e humanistas da atualidade que, pelo menos em tese, o ''ser'' deve preceder o ''ter'', ainda que, na prática, o inverso desta lógica, ou seja, de que quanto mais eu tenho, mais me aproximo do sentimento de estar ''sendo'' verdadeiramente, seja uma marca implacável dos relacionamentos (superficiais e utilitários), que têm configurado nosso tempo (pós-moderno).
Assim, se atentarmos para o fato, poucas vezes claro, de que ''ser'' é melhor que ''ter'', precisamos ter em mente uma outra espécie de idolatria, tão pérfida quanto a do ter, que é a ''idolatria do ser''. A questão que proponho aqui é a seguinte: o quê, pelo quê e para quê ''somos''? Se essa pergunta fosse feita ao Apóstolo Paulo, com facilidade ele poderia responder que somos frutos do ato criador de Deus e de sua Graça permanente, cuja plenitude está em Jesus Cristo, e vivemos por e para Ele, ''porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas''. Nele está a nossa maior razão e conformidade de ''ser'', simplesmente pelo que somos e independentemente do que temos.
Porém, não raras vezes, nos deparamos com a capacidade, que em nós se encerra, de inverter os papéis: com facilidade atribuímos a homens (ou a ''coisas'') o que é Divino e a Deus o que é humano. Materializamos a angústia e o desejo que, consciente ou inconscientemente, temos, de ''possuir'' um deus com quem facilmente se pode barganhar, manipular ou controlar. O mistério e a ''loucura'' da fé cristã, bem como os desígnios imprevisíveis de Deus, muitas vezes não nos interessam porque nos tiram do controle de nossas próprias vidas e das coisas que nos circundam.
A ''idolatria do ser'' aponta para um apelo, inerente ao ser humano, de querer ''ser'' por si mesmo, ''ser'' acima dos outros, ''ser'' igual ou alheio a Deus, longe de seus ''palpites'' deliberados. Em contrapartida, vemos o Apóstolo Paulo, que se afeiçoava tão somente com a Glória gerada pelo escândalo da Cruz de Cristo, e não se gloriava por nada a não ser pelo fato de ''ser-na-Graça''. Hoje, parece que o escândalo se esvaiu, a cruz caiu de ''moda'', e a Graça perdeu a sua ''graça''. Não há tantas pessoas mais que se envergonham do Evangelho, mas o ''evangelho'' que por aí tem sido pregado, esse sim é uma vergonha!
Que o exemplo do Apóstolo, um agente difusor da mensagem da cruz, possa nos impulsionar a também sermos agentes com ele, desta mesma mensagem, no poder do Espírito Santo, e que o amor inextinguível de Deus, possa nos despertar para a realidade de que, Nele, já ''somos'', fazendo ecoar em nós a Voz que diz: ''A Minha Graça te basta''.
JONATHAN MENEZES é bacharel em História pela Universidade Estadual de Londrina, estudante de Teologia na Faculdade Teológica Sul-Americana e membro do Movimento Evangélico Progressista





