ESPAÇO ABERTO - A história, as estátuas e os mitos com pés de barro...


João dos Santos Gomes Filho
João dos Santos Gomes Filho

Vendo o fogo consumir a estátua de Borba Gato, em São Paulo, em algum lugar na avenida Santo Amaro – que faz travessa com a rua Graúna, em Moema, onde está o Original, meu boteco há vinte e cinco anos – me detenho na grita que se levanta contra o ataque a simbologia (genocida, escravocrata e dado à traficância sexual, conforme ‘A vida e morte dos Bandeirantes’, de Alcântara Machado) da escultura...


A obra de Alcântara Machado (que é um dos maiores nomes do primeiro tempo modernista) foi publicada em 1929 e é considerada modelo inovador mesmo para os padrões da nova estética linguística que então se pronunciava, na medida em que se detém na análise documental para formar a identidade do cotidiano que desnuda, centrando seus esforços no que nomina de ‘homens comuns’.


A partir da visão deste ‘homem comum’, Alcântara Machado esmiúça a cidade pacata que passou, dando lugar a agitada metrópole dos anos vinte.


Vida e morte do bandeirante foi festejado como livro de história, suposto que o autor, em lugar de lendas e crônicas de linhagistas e jesuítas, utilizou de fontes documentais (cf. ARAÚJO Karina Anhezini, 2006, in Um metódico à brasileira: A história de historiografia de Afonso de Taunay (1911-1939). Tese (Doutorado em História), Universidade Estadual Paulista ‘Júlio de Mesquita Filho’, Assis, SP).


Vida e morte à parte, não é de Alcântara Machado que pretendo falar e sim dos que se apegam à estátua do bandeirante (erguida em 1963) sem conhecer o seu real significado. Falo dos ignorantes de rede social, uma gente que não lê, não pesquisa, não pensa e, à par disso, emite conceito sobre tudo – de cirurgia cardíaca à decisão judicial...


Essa gente se apressou a dizer que o ato de queimar a estátua é manifestação política patrocinada pela esquerda marxista. Vamos começar, então, explicando o significado das expressões esquerda e direita, que remete à Revolução Francesa, no século XVIII...


Quando a Assembleia Nacional se reuniu após os atos inaugurais da Revolução Francesa, ela se dividiu entre os partidários do rei (à direita do presidente) e os que apoiavam a revolução (à sua esquerda). A vida seguiu daí em diante, para todo mundo, haja vista a extensão extraordinária da, talvez, mais importante das revoluções...


Então, saiba você desavisado navegador de rede social que crê em terraplana, é distópico, lê Olavo de Carvalho, tem uma tatuagem do muro de Berlim na omoplata, ama sucrilhos, usa pulôver de crochê e ignora por completo a história: ser de esquerda não quer dizer, necessariamente, ser marxista – embora me pareça grandioso elogio conhecer e beber da fonte do alemão barbudo...


A estátua foi queimada, pelo que li, por um coletivo chamado Revolução Periférica (que teria assumido a autoria do ato) e sua conotação política é de reparação histórica, na medida em que a escultura homenageia alguém que o coletivo quer ver redesenhado sem as vestes da fantasia e do desconhecimento histórico...


Pode-se questionar o método (fogo em obra pública), jamais a pretensão do coletivo. Imaginem uma escultura de Adolf Hitler na Palhano...


Ainda que os amantes do Steve errado (o Bannon, não o Wonder) se assanhem com a ideia e saiam à cata da versão em quadrinhos de my kampf (para não parecerem ignorantes – como lhes fosse possível não parecer o que são), acho que o significado de qualquer homenagem a alguém que só fez o mal não edifica, não agrega, não vale a arte...


Eu derrubaria qualquer estátua do chanceler do mal. Há, todavia, aqueles que, por ignorância, se deixam levar pelos do mal e, assim tangidos, se põe a mugir justificativa para tudo (de negacionismo à terraplana).


A estes está reservado um lugar no limbo, com direito a terem negado assento na barca de Caronte por falta de pagamento...


A reparação histórica é medida salutar e mais do que necessária afim de que a inclusão social seja, naturalmente, entendida enquanto fruto de uma dívida histórica que o homem branco tem com o negro, com o índio, com a mulher, com o homossexual – enfim: com as minorias todas e, também, com a vida e as flores que não são de plástico...


Há, mas você só tem dezenove anos e nunca teve escravos, jamais queimou um índio, não tem preconceito contra homossexuais, tampouco discrimina mulher. Parabéns por nada, já que o playboy não faz senão cumprir o ideário civilizatório, ainda que sob a chuva severa da criação machista...


Tristes trópicos, onde a homenagem está posta ao arrepio da cidadania e da história, e os coletivos minoritários têm que apelar (tacando fogo em estátua de assassino) para serem respeitados...

João dos Santos Gomes Filho, advogado


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