ESPAÇO ABERTO - A hipótese Deus na era pós-moderna
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quinta-feira, 27 de maio de 2004
João Tescaro Júnior 
França. Século 18. A euforia científica, incentivada pelas descobertas de Galileu, Kepler, Descartes e Newton, no século anterior, levou alguns entusiastas a declararem até mesmo o ''fim da física'' sob o argumento de que tudo de essencial em física já havia sido descoberto. Em meio a este contexto, Napoleão Bonaparte perguntou ao matemático e astrônomo Pierre Simon, o marquês de Laplace, a razão pela qual o Criador não foi mencionado em seu livro Mecânica Celeste. Laplace, com a força de seu espírito racionalista, foi categórico em sua resposta: ''Sua Excelência, eu não preciso dessa hipótese''.
Século 21. Ano 2004. O cenário parece animador. A produção científica cresce rápida e exponencialmente. O genoma humano é decodificado. A clonagem terapêutica e a criogenia instigam a idéia de imortalidade. O planeta Marte é explorado como nunca. O turismo lunar se torna uma obsessão dos bilionários. Os personal computers estão por todos os lados. O mundo virtual viaja com os quatro ventos. A globalização seduz os espíritos mais modernos. Os países, aparentemente, desmancham suas barreiras. As cortinas caem. Entra em cena um admirável mundo novo. Mas seria ele tão admirável assim?
A paisagem descrita certamente faz lembrar a visionária obra do escritor inglês Aldous Huxley. No entanto, muito mais que ficção, tais acontecimentos mascaram uma implacável crise ética. Na época atual - que por falta de nome é chamada pós-moderna - vive-se a desconformidade entre as transformações e o vazio ético originado a partir da rejeição do sistema de valores e crenças tradicionais. Suas características são o individualismo, a fragmentação, a efemeridade e o superficial.
No plano político internacional, o que predomina é a submissão da humanidade aos interesses exclusivos das grandes nações. Na política local, candidatos egomaníacos e corruptos são tidos como benfeitores. No plano pessoal, o individualismo competitivo, excludente e dominador marca as relações de convivência. Na ciência, os avanços galopantes criam um sentimento de insegurança, eis que o mundo vai se tornando cada vez mais imprevisível, irresistível e incompreensível, nas palavras do historiador Nicolau Sevcenkoo. Estaria a humanidade vivendo uma grande emboscada?
Hoje, dois séculos e meio mais tarde, se um clone de Laplace fosse criado pela engenharia genética, desenvolvesse uma inteligência tão farta quanto a do antigo marquês e lhe fosse apresentado o mundo pós-moderno, talvez ele diria a um estadista qualquer, após teorizar: ''Sua Excelência, só posso afirmar que Deus é a única hipótese plausível''.
JOÃO TESCARO JÚNIOR é advogado em Londrina


