ESPAÇO ABERTO - A herança legada sem testamento
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de agosto de 2004
Daniel Afonso da Silva 
''Como pode um povo se misturar racialmente sem se misturar socialmente?'' Enigma que o Brasil, em suas singularidades e especificidades, vai ter que responder.
Nos últimos 20 anos a discussão sobre a questão racial ganhou visibilidade e pluralidade expressivas na sociedade brasileira. Sobretudo a partir da simbólica comemoração do centenário da abolição da escravatura (1988) o movimento negro e as discussões acerca da escravidão, os choques culturais, a afrobrasileiridade, afrodescendência, evadiram os pequenos grupos e se afirmam continuamente como um fator nacional, necessário e insofismável para a sociabilidade nacional. Mas, um maior comprometimento parece ser mais vigoroso nos grandes centros. A interiorização das abordagens ainda é esperada.
A implantação do sistema de cotas para afrodescendentes nos vestibulares da Universidade Estadual de Londrina (UEL), independente da eficácia metodológica, revela algo muito importante para a microrregião do Norte Pioneiro do Paraná: o despertar para o debate racial como um projeto social.
O descrédito empregado à questão induz à conclusão nefanda da inexistência de afrodescendentes na região. Nenhuma de suas faculdades, estaduais ou particulares, possui uma discussão explícita e de qualidade relacionada à multiplicidade étnica local e regional. A investida da UEL é referência. Indubitavelmente.
O avivar da problemática no Norte antigo do Estado roga urgência. Mas a interiorização, validade e ampliação da análise não pode prescindir da adesão social responsável e verdadeira. Como viver juntos se somos diferentes? Isso não é racismo às avessas. É fato em todo o país. O ingresso à universidade é essencial, mas precisa estar conectado à ascensão da qualidade de existência do indivíduo. Não podemos continuar obliterando a herança legada sem testamento: mistura racial desvinculada da social.
As discussões no Estado do Paraná não são imperceptíveis, mas estão aquém do necessário. A UEL e a sociedade que lhe circunda já começaram a contribuir para o reverso do legado sem testamento. Falta o Norte Pioneiro.
DANIEL AFONSO DA SILVA é estudante de História na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho


