ESPAÇO ABERTO - A guerra da globalização
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de dezembro de 2003
Tarcísio Vanderlinde 
O terrorismo, ou quarta guerra mundial como também está sendo chamado este tipo de ação (a terceira teria sido a guerra-fria), apesar de se intensificar no tempo presente, não é tão recente quanto parece. Atos terroristas e sabotagens estimulados por motivos diversos já aconteceram em outros momentos da história. A primeira guerra mundial, que aconteceu na segunda década do século XX, desencadeou-se a partir de um atentado terrorista na cidade de Serajevo, no dia 28 de junho de 1914 contra o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da Áustria-Hungria. Alvejado por um estudante bosniano venho a falecer quase que instantaneamente. Mas essa parece ter sido uma fase romântica do terrorismo se considerarmos o que acontece atualmente.
Hoje, em decorrência do terrorismo, não se pode mais ter certeza que uma guerra de ocupação dará certo. O melhor exemplo vem do Iraque. O terrorismo é uma guerra pós-moderna que funciona bem se consegue ser feita, aonde a mídia dará uma boa cobertura. O objetivo é desestabilizar, mandar recados contundentes, criar impacto, assustar (observe-se quem são os destinatários dos recados enviados pelos atentados na Turquia nos dias 15 e 20 deste mês). É com o advento das comunicações instantâneas que se criaram as condições ideais para o terrorismo. Numa grande ironia, ela explode literalmente com a globalização. É a guerra da globalização por excelência, pois foi ela própria, fundamentada no discurso da modernidade e do progresso, a principal mola propulsora dessas ações.
Segundo estudiosos, o terrorismo deverá se intensificar e se caracteriza na cara oculta e inesperada de movimentos antiglobalização. Essa é também a opinião de Jessica Stern, pesquisadora da Universidade de Harvard e especialista em armas de destruição em massa e terrorismo. A professora, que entrevistou mais de 100 terroristas, prevê novos ataques como os de 11 de setembro de 2001. Ninguém tem certeza se a ameaça é só fumaça ou se vem fogo mesmo. A professora não descarta inclusive que terroristas poderão utilizar armas nucleares para criar um impacto ainda maior nas suas ações.
Em entrevista às páginas amarelas da Veja, edição de 19 de novembro último, a professora ressalta que o que mais chamou atenção na sua pesquisa, foi o que os grupos terroristas têm em comum, independente da crença religiosa. O que mais se destaca, é o ressentimento em relação à chamada nova ordem mundial, onde todos se consideram excluídos do processo de globalização econômica. Em seguida, aparece a estratégia utilizada pelas lideranças das organizações para recrutar e mobilizar os combatentes, principalmente os jovens desesperançados do mundo atual. A principal é enfatizar o sentimento de humilhação a que seus seguidores são submetidos pelo inimigo e o perigo que ela representa.
O que se observa é o chavão de que a organização está sob ameaça de uma entidade externa e que a única saída para recuperar a dignidade é pegar em armas e lutar contra esse inimigo. A pesquisa da professora ainda apresenta outros dados estarrecedores que o leitor interessado poderá buscar na fonte indicada. A situação por ela descrita serve para detalhar um dos lugares pós-modernos que o progresso excludente nos levou.
TARCISIO VANDERLINDE é professor da Unioeste no Campus de Marechal Cândido Rondon


