ESPAÇO ABERTO - A grande comédia
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sexta-feira, 12 de setembro de 2003
René Ruschel 
Fossem outras as circunstâncias e os personagens nela envolvidos, a cena poderia parecer mais um protesto dentre os inúmeros gestos de rebeldia que teve o Congresso Nacional como palco. No caso em questão foi, no mínimo, hilariante: quando se certificaram que a proposta da reforma tributária seria votada e aprovada, um grupo de parlamentares deixou o plenário de mãos dadas cantando o Hino Nacional brasileiro. Tudo seria compreensível se os deputados rebeldes não fossem parte da bancada do Partido da Frente Liberal - PFL, neto da antiga Arena e filho do ex-PDS, atualmente PP.
A onda de protestos dos neo-oposicionistas teve início dois dias antes da votação, quando os dirigentes convocaram um grupo de atores para representar o descontentamento da sociedade com a política econômica do governo Lula num ato teatral defronte à Praça dos Três Poderes, em Brasília. No evento estiveram presentes, segundo a Polícia Militar, cerca de 50 pessoas entre populares e manifestantes - neste caso, incluindo os deputados e dirigentes partidários.
A surpresa é que o PFL, por sua genética ideológica, jamais militou na oposição. Nascido de um cisma entre aqueles que no colégio eleitoral, em 1985, apoiaram a candidatura de Paulo Maluf à presidência da República e os dissidentes que optaram por Tancredo Neves, o partido submeteu-se, à época, a uma simbiose política histórica. O preço da fatura foi a indicação do candidato a vice-presidente e a escolha recaiu sobre o então ex-presidente do PDS, José Sarney, que por uma questão legal filiou-se ao PMDB e o ''pefelê'' veio a reboque. Seus antepassados, Arena e PDS, deram sustentação ao regime militar por mais de vinte anos; o PFL apoiou os governos Sarney, Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, em dois mandatos. Somados, são 38 anos de poder.
No Brasil, os partidos políticos, em menor ou maior intensidade, são um aglomerado de interesses de toda ordem. O exemplo do PFL apenas retrata um fato momentâneo. A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva só foi possível graças ao amálgama ideológico que se formou ao redor de seu nome. A válvula de escape nestes casos é a tentativa de se maquiar um projeto que contemple alguns pontos em comum, no entanto, as divergências são tamanhas que executá-lo, mesmo que minimamente, não passa de miragem. Por aqui os políticos, na sua quase totalidade, são movidos por um pragmatismo voltado às próximas eleições ou aos benefícios mais imediatos, transformando a política num imenso balcão de negócios.
Em alguns países, notadamente nos Estados Unidos, cada agremiação tem sua identidade programática definida. Mesmo sendo um regime também presidencialista, onde a figura do presidente é forte, o interesse da população supera o personalismo para dar lugar à sigla. Afinal, independente de quem seja o vencedor os eleitores saberão de antemão o programa a ser adotado.
Sem uma reforma política, as mudanças em curso correm o risco de estarem contaminadas pelo vírus do fisiologismo e do atraso num período mais curto que o próprio mandato presidencial.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


