O processo de globalização trouxe um paradoxo muito discutido entre estudiosos e políticos. Ao mesmo tempo em que permite a aproximação de diversos setores, também faz a seleção dos participantes do processo. Para melhor exemplificar essa dicotomia, falaremos de um dos fatores sociais que melhor se insere no contexto atual: a exclusão social.
Globalizar significa, segundo o dicionário, ''tornar global'' ou ''totalizar'', mas não é isso que verificamos na prática. Quanto mais se globaliza, mais se exclui, ou seja, participam do processo totalizante os que já tinham ação garantida: os detentores do poder e as classes sociais mais abastadas.
Verifica-se este contexto muito claramente nos noticiários diários. No Brasil, alguns casos de exclusão são ainda mais alarmantes que em países desenvolvidos. Na Noruega, por exemplo, um pedreiro pode receber ao final de seu trabalho o mesmo que um engenheiro. Neste mesmo país, o número de homicídios (cerca de 50 por ano) é irrisório perto dos números que presenciamos no Brasil.
Discute-se muito a questão do policiamento devido ao aumento da violência, e, pior que isso, o poder do crime organizado e do narcotráfico (os dois me parecem sinônimos), mas esquecem de falar das causas. A verdade é que totalizar apenas uma parte social traz sérias consequências. A porção excluída do processo começa a sofrer os resultados e buscar meios de não ser esmagado pela maioria.
Esses cidadãos que roubam ou que usam o narcotráfico (ou são usados por ele), são os mesmos que não conseguem um trabalho digno, um salário digno, uma participação digna. Talvez essa seja a única forma encontrada de sobrevivência, mesmo que para isso tenham que acabar com a vida de seu irmão.
Essas pessoas tornam-se frias e indiferentes, não porque vivem entre computadores, atarefadas com a vida diária, mas porque simplesmente não têm o que comer. Aqueles que têm a participação garantida, como mencionei acima, na sua maioria, não estão preocupados com essa massa, mas cada vez mais com seu próprio mundo.
Não tenho a pretensão de defender cidadãos que se permitem praticar atos ilícitos, mas lembrar nossos colegas que por detrás destas atitudes que rotulamos como inconsequentes, horripilantes, injustas e inaceitáveis, estão pessoas que se tivessem oportunidade de estarem totalizadas como ''os outros'', talvez não estariam roubando ou matando, mas trabalhando.
Vamos manter um olhar atento daqui para frente. Olharemos com indignação, mas saberemos as verdadeiras causas de tanta violência. Enxergaremos muito além do que podemos ver, ouvir ou ler. Faremos uma outra leitura e teremos um outro olhar quando passar em frente as nossas favelas. Perceberemos então que aquele cidadão ''diferente e perigoso'' tem nome, tem família, tem vida. Eles só não conseguiram ter oportunidades!
ANA CRISTINA PEREIRA é estudante de jornalismo em Londrina

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