A campanha eleitoral do próximo ano, que elegerá 5.560 prefeitos e 61 mil vereadores, abrirá uma locução bastante diferente do tom usado nas campanhas políticas do País. As campanhas para prefeito têm se limitado, historicamente, à esfera municipal, na evidência de que os eleitores sabem definir os espaços da micro e da macropolítica. Em 2004, será um pouco diferente. Nas grandes e médias cidades, as campanhas poderão ganhar contornos federais, na esteira de um ciclo político que o governo comandado pelo PT está inaugurando.
Quem tinha dúvidas a respeito disso, acaba de dissipá-las com o anúncio de que o presidente Luiz Inácio estará à frente de uma caravana que correrá o País, ajudando, se não direta, pelo menos indiretamente, a campanha de correligionários. Para dispor de mais tempo, fará apenas três viagens internacionais, a primeira, em janeiro, para a Índia, a segunda para a China, em maio, e a terceira, no início do segundo semestre, para a Rússia. A federalização das campanhas nos grandes centros tende a criar marolas que circularão até os estados mais distantes, podendo, em alguns espaços, gerar intensa polarização.
Há razões para se apostar no caráter plebiscitário da campanha. Não há como esquecer os horizontes de mudanças prometidos pelo PT em sua forte campanha presidencial. Para os brasileiros, Lula poderá fazer o que Sísifo da mitologia grega jamais conseguiria: subir a montanha íngreme com uma pedra sobre os ombros e depositá-la no topo. A pedra de Sísifo, com a força de Lula, não rolará montanha abaixo, garantindo aos brasileiros que subirem ao pico, contemplar, de cima, a beleza dos vales e a sinuosidade dos despenhadeiros.
Essa é a expectativa que continua gravada no coração de tantos quantos esperam por avanços nos campos econômico, social e institucional. Na beira da eleição de 2004, perto de completar dois anos de mandato, o governo será postado diante de um gigantesco monumento de esperanças renovadas. Ali, será testado. Se o espetáculo do crescimento começar a receber aplausos, mesmo que os cenários não estejam todos pintados de verde, é razoável apostar na vitória do situacionismo, com o PT desfraldando bandeiras vermelhas em mais de mil prefeituras. Ao contrário, se o crescimento ocorrer apenas na esfera do espetáculo dos discursos metafóricos e messiânicos, o que se pode esperar é a reversão de expectativas. Petardos atingirão, nesse caso, a imagem presidencial.
Trata-se de um processo de aprovação/desaprovação que levará em conta fatores que ultrapassam a simples aritmética de feitos governamentais. Há um processo de reorganização sóciocultural em marcha, cujo foco é a climatização dos ambientes com o oxigênio de um novo grupo de valores, destacando-se, entre eles, o adensamento da ética, a purificação de costumes políticos, a assepsia administrativa, a transparência nos gastos, a cobrança social mais acesa e um desejo intenso de participação social no processo decisório.
A abordagem da federalização será sentida na esfera das consequências mais abrangentes da política - o estado de satisfação dos cidadãos, a harmonia e a segurança social, as queixas das classes médias, as conturbações nas periferias, os apertos e agruras decorrentes dos bolsos mais apertados, enfim, a diminuição ou expansão do Produto Nacional Bruto da Felicidade.
O pano de fundo será um país sob o ciclo de mudanças prometidas. Para a maior parte do eleitorado, mudar significa alterar, abrir novas possibilidades, tirar o país do atraso, melhorar a vida das pessoas. Se esses sinais não aparecerem na linha do horizonte eleitoral, a esperança desvanecerá e a mesmice voltará com a cara do passado. O batalhão de prefeitos e o contingente de vereadores estarão a reboque desse processo.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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