ESPAÇO ABERTO - A fé e as obras Mário Eugênio Saturno
A preocupação com o social não é recente na Igreja. Ela sempre existiu. Mesmo entre os judeus havia a preocupação em proteger as viúvas e os órfãos (Êxodo 22,21). A prática de usura entre os judeus (Êxodo 22,24), bem como qualquer tipo de exploração (Êxodo 22,20), era proibida. Afinal, eram irmãos (todos descendiam dos doze irmãos, os patriarcas) e não cabia um irmão prejudicar outro.
O profeta Jeremias (22,3), dirigindo-se ao rei dos judeus, resumiu bem a justiça social judaica: ''Assim diz Javé: pratiquem o direito e a justiça; libertem o oprimido da mão do opressor; não tratem com violência, nem oprimam o imigrante, o órfão e a viúva; e não derramem sangue inocente neste lugar''.
Para Tiago (1,27), ''religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo''; e mais, (2,18) ''mostre-me a sua fé sem as obras, e eu, com as minhas obras, lhe mostrarei a minha fé''. Mas é no capítulo 5 que Tiago (5, 1-6) mostra sua visão de justiça social: ''E agora vocês, ricos: comecem a chorar e gritar por causa das desgraças que estão para cair sobre vocês. O ouro e a prata de vocês estão enferrujados e como fogo lhes devorará a carne. Vejam o salário dos trabalhadores que fizeram a colheita nos campos de vocês: retido por vocês, esse salário clama, e os protestos dos cortadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Vocês tiveram na terra uma vida de conforto e luxo; vocês estão ficando gordos para o dia da matança''.
Apesar da atuação social da Igreja, a preocupação com a questão social tomou uma forma importante somente em 1891, com a primeira grande encíclica nessa área: a Rerum Novarum, do Papa Leão XII. Em 1991, para comemorar os cem anos daquela encíclica, o Papa João Paulo II escreveu a encíclica Centesimus Annus, que reafirma a preocupação com a problemática das relações entre capital e trabalho.
Ela reafirma a posição da Igreja sobre a dimensão social da fé, o aspecto moral e religioso. A encíclica mostra que a doutrina social faz parte essencial da mensagem cristã e que a Igreja deve ensinar e difundir. Vemos que a sociedade e o estado devem garantir o emprego e assegurar salários adequados ao sustento do trabalhador e de sua família e com uma margem para poupança. Também devem tornar o trabalho mais qualificado e produtivo; evitar a exploração dos trabalhadores mais débeis, imigrantes ou marginalizados; e garantir o respeito de horários de repouso.
A Igreja reconhece a função do lucro como recompensa à poupança e à iniciativa do investidor. Porém, as empresas devem promover o homem e a sociedade. Isso é o reconhecimento de que a riqueza é fruto do trabalho e condena a extorsão do trabalhador ou do consumidor. A encíclica papal condena o capitalismo e o comunismo. Afirma que é correto falar de luta contra um sistema econômico. Assim, é necessário assumir uma posição política de defesa da população.
MÁRIO EUGÊNIO SATURNO é tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano





