ESPAÇO ABERTO - A falácia ortodoxa do Banco Central
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de outubro de 2004
Marcos Vinícius Henrique 
Segundo o último relatório de inflação do Banco Central, há risco do descumprimento da meta inflacionária central para o ano de 2005, suscitando a necessidade de novos aumentos da taxa básica de juros.
O documento traz dados indicando que alguns setores industriais ''estão com utilização da capacidade instalada em níveis historicamente elevados'', trazendo a possibilidade de inflação de demanda. Essa tese não se sustenta, já que a produção de bens semi e não-duráveis encontra-se estável segundo as últimas estatísticas industriais, evidenciando que a recuperação em curso ainda não atingiu os setores menos elásticos à renda, esta em lenta recuperação.
Além disso, o nível elevado de utilização da capacidade instalada não é generalizado, sendo concentrado em setores exportadores, cabendo a estes recorrer a produtos importados em caso de formação de gargalos sem, no entanto, prejudicar o pujante saldo comercial. Na realidade, verifica-se que o principal empecilho à expansão da produção encontra-se na precária infra-estrutura logística, como portos sucateados e estradas em péssimas condições de uso.
O recente avanço inflacionário vem sendo ocasionado por fatores exógenos à taxa de juros, como: ''choques de oferta'' causados pela elevação das cotações de ''commodities'' (petróleo e aço, principalmente); impacto dos preços administrados indexados por IGPs; altas sazonais de alguns produtos agrícolas; e pressões de alguns oligopólios para recompor margens.
Recentemente, o Governo elevou a meta do superávit primário para este ano de 4,25% para 4,50% do PIB. O lamentável é que esse resultado não será obtido via redução de gastos correntes, através da eficiência e racionalidade do dispêndio público, mas por simples aumento da carga tributária e contingenciamento de investimentos. Dessa forma, onera-se a produção e por consequência reduz-se o investimento privado, além de não melhorar a infra-estrutura básica da economia. Segundo autoridades monetárias, a medida não terá nenhuma influência sobre a política monetária, contrariando a teoria econômica, já que com maior arrecadação, menor é a capacidade de consumo e produção dos agentes econômicos.
Do exposto, a iniciativa do BC suscita certa contradição, pois juros maiores desestimulam o investimento, peça fundamental de combate à inflação via expansão da oferta. O país não pode ser fadado a ter seu crescimento abortado por conta do estabelecimento de metas de inflação ambiciosas e pela política monetária excessivamente ortodoxa, necessária para atingi-las.
MARCOS VINÍCIUS HENRIQUE é estudante de de Ciências Econômicas na Universidade Federal do Paraná em Curitiba


