Gosto de recordar histórias da infância. Elas me ajudam a neutralizar, ainda que por alguns minutos, o tédio decorrente deste cotidiano repetitivo e tristemente enfadonho. Uma das histórias que gosto de lembrar é a fábula do urubu, embora não a tenha encontrado nos sites de busca da internet pra contá-la em detalhes. Penso que ela, como certos princípios supostamente fundadores desta nação, está fora de moda.
É o seguinte: toda vez que começava a chover, molhado do bico à ponta do rabo, o urubu se lembrava que ainda não tinha providenciado um abrigo. ''Assim que passar a chuva, vou construir uma casa para mim'', prometia o senhor dos ares, aquele que, malandramente, flutua nas térmicas e economiza nas batidas de asas. Finda a chuva, assim que o Sol voltava a brilhar, o urubu, imediatamente se esquecia da promessa e saía por aí a voar. Só iria se lembrar da casa quando a próxima chuva lhe encharcasse as penas em pleno voo.
Mais ou menos como acontece com o Brasil e a estação das chuvas, benfazeja água que desce dos céus e irriga córregos, regatos, rios e mares. Desde sempre sabemos que em determinada época do ano chove torrencialmente ''nessa terra em que se plantando tudo dá''.
Apesar de cientes da ocorrência de tal fenômeno meteorológico, de sua intensidade e estragos que causa, entra ano e sai ano e nada acontece que altere, de forma positiva, a rotina cruel que penaliza milhares de famílias que ficam sem um teto em meio ao temporal.
Não faz muito tempo a sexóloga Marta Suplicy, aquela que recomendou relaxar e gozar em caso de caos no sistema aeroviário brasileiro, no tempo em que era prefeita de São Paulo, megalópole que inunda ano sim e outro também, foi para Paris enquanto a cidade ficava submersa.
Dos tempos da Colônia à República, na ditadura ou na democracia, o problema das enchentes só é lembrado quando o morro, agredido pela ocupação irregular, pelo desmatamento criminoso, pela especulação imobiliária, pelo descaso da política, resolve se manifestar e se transforma em avalanche de lama levando de roldão tudo que encontra pela frente. Da mesma forma que o rio, sem a mata ciliar, inunda e invade casas, vilas e cidades. Vidas e mais vidas perdidas. Comoção nacional.
Entre uma primavera-verão e outra, desaparecem as notícias das enchentes. Depois do Carnaval, da Quaresma e da Páscoa, o espaço será ocupado, então, pelas denúncias de licitações fraudulentas, do dinheiro que chegou à cidade e foi parar na conta do prefeito e de seus cupinchas, do desvio das doações de roupas, alimentos, remédios, água e outros itens essenciais que o brasileiro de boa índole, a maioria absoluta dos filhos deste chão ''abençoado por Deus e bonito por natureza'' envia, todos os anos, para as vítimas das chuvas.
Enquanto isso, a TV informa que uma aposentada de 79 anos, agredida por agiotas que cobravam uma conta do neto, ficou cega do olho esquerdo. Na sequência, destaque para a denúncia de que os postos de combustíveis, os mesmos que abastecem nossos carros com álcool, gasolina e diesel batizados e crismados com todo tipo de líquidos inadequados para a combustão automotiva; os mesmos que cartelizam o comércio desses produtos e ditam os preços que querem e nada contundente, exemplar, acontece, embora o Ministério Público afirme estar de olho nesse segmento.
Pois é, a turma que gosta de levar vantagem em tudo, agora, registra y de combustível na bomba de abastecimento e entra apenas x no tanque do veículo. Suspeito ser isto que o Mito de Sísifo tenta nos esclarecer. Que viver, pelo menos neste mundo que conhecemos, é assim mesmo. É gente passando gente para trás o tempo todo. Rotina, apenas. Neste caso, melhor ficar com as histórias infantis. Melhor lembrar do urubu que, no fim das contas, prejudica apenas a si mesmo e não a toda uma coletividade.

MARIO FRAGOSO é jornalista em Londrina

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