ESPAÇO ABERTO - A ética da pelada
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de julho de 2010
Júlio Cesar Rodrigues 
Maradona marcou o mais famoso gol irregular da história na Copa de 1986 com ''La mano de Dios''. Thierry Henry também usou a mão para dar o passe para a França entrar na Copa de 2010, na qual o time acabou fazendo um papelão. E Luis Fabiano ingressou no restrito grupo ao ajeitar com o braço um dos tentos que deram a vitória do Brasil frente à Costa do Marfim, agora na África.
Maradona já pediu perdão, mas continua atribuindo a façanha ao Divino. Thierry Henry, crucificado pelo mundo, chegou a anunciar a aposentadoria. Luis Fabiano ainda desconversa, mas vai chegar o dia de confessar. Uma pergunta, porém, intriga: por que nenhum dos três artilheiros pediu ao árbitro para invalidar o gol irregular?
E para não se esquecer dos casos mais recentes: Carlito Tevez também marcou um gol contra o México em claro impedimento e saiu comemorando, não sem antes dar uma olhadinha para o auxiliar. E o goleiro alemão Neuer não confessou ao árbitro que a bola chutada pelo inglês Lampard atravessou a linha do gol. No show de tecnologia desta Copa, tudo é revelado, nada fica escondido.
Os erros da arbitragem são expostos covardemente, porque não há olho humano que supere um super ''slow motion''. Um discreto beliscão no adversário é captado em detalhes pelas câmeras. Nem os sussurros impensados escapam. Não é mesmo, Dunga? É constrangedor quando o atleta nega o que a televisão escancara, por todos os ângulos.
Essa nova realidade bem que poderia estimular os jogadores profissionais a acusarem suas próprias infrações, valorizando a ética esportiva em oposição à malandragem futebolística muitas vezes ensinada desde cedo em algumas escolinhas. Seria um favor a eles próprios, que evitariam o mico em casa e na rua. O regulamento do futebol deveria premiar o ato honesto. Seria o verdadeiro ''fair play'' (''jogo limpo'') que permitiria a competição saudável, sem o famoso jeitinho que as câmeras mostraram não ser exclusividade nossa.
Nas peladas de final de semana, onde não há câmeras, normalmente também não há árbitros, nem bandeirinhas. As regras são próprias de cada lugar. Numa das mais famosas da região (a da ''Turma do Abelardo'' em Arapongas), há 44 anos uma regra, dentre tantas outras, é clara: quem coloca a mão na bola, voluntariamente ou não, deve confessar a infração. Forma simples de pôr em evidência a ética de cada um. A manutenção no grupo depende do respeito a essa regra.
Mas seria mesmo possível transportar esse senso ético para o futebol profissional, onde avultam tantos interesses? O que teria sido, por exemplo, de Luis Fabiano se tivesse confessado o gol irregular e o Brasil fosse desclassificado naquele momento? Por acaso ficaria feliz a nação (e o seu patrocinador) com tal gesto de nobreza? Sem isentar o resto do mundo, interessa aqui refletir sobre a questão que nos afeta: somos um povo honesto?
Danilo Gentili apresentou tempos atrás no CQC, da Rede Bandeirantes, um curioso e não científico ''Teste de honestidade'', colocando à prova o caráter de alguns populares em pequenas situações do dia a dia. O resultado foi um vexame. Numa banca de jornais, o vendedor entregava o troco errado, tudo visto por uma câmera oculta. Poucos devolviam o excesso. Num local público, o celular do repórter foi deliberadamente ''esquecido'' e a maioria das pessoas levava embora o aparelho.
É provável que a ética da pelada jamais chegará aos estádios, mas não é proibido ensinar desde cedo ao filho que, na vida, nenhum jogo deve ser jogado com trapaças, com vantagens indevidas às custas do outro. Seria o começo de um país diferente.
JÚLIO CESAR RODRIGUES é advogado e professor em Arapongas
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