ESPAÇO ABERTO - A estética da dor ou a hora do gênio...
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de novembro de 2020
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Diego, que sempre foi história em estado bruto, hoje é história em estado puro a doer como poucas vezes me doeu a dor da identificação idólatra que sempre desmereci...
‘Maradone-se’, meu amigo, que a hora mais dolorosa é a da partida física, suposto que ele já é eterno há uns quarenta anos, onde segue estrela maior do próprio multiverso...
Quando conheci Maradona, redescobri um Deus que, então, vinha ‘agnosticando’ apesar de minha formação católica contabilizar uma passagem pelo vinho do Padre enquanto coroinha. Explico...
Quando os ingleses invadiram as ilhas Malvinas, os generais golpistas do lado de lá do rio Iguaçu viram no movimento uma oportunidade neoliberal de unir um país, então mais que dividido pela sangrenta ditadura de videla e seus cães de estimação...
Essa dor intangível dos hermanos tombando sob a máquina de guerra inglesa em nome da ganância e da estupidez, me arrastou aos recantos sombrios da descrença e eu cheguei a duvidar ...
O jogo é um marco na história do futebol, por dois motivos protagonizados por Diego: dois gols. No primeiro, antológico pela magia, Maradona saiu a driblar os soldados inimigos, derrubando-os um a um (obrigado meu amado filho pela extraordinária metáfora), até encontrar as redes. No segundo, saltando com o goleiro inglês, na iminência de ser vencido na estatura que lhe parecia faltar, Diego usou o braço e, de mão, desviou a bola e a empáfia imperialista para o fundo do gol...
Diego me devolveu ao caminho da fé, sem nunca ter feito qualquer pregação. Sem jamais ter ido além de vestir as chuteiras imortais que a vida batizou e o próprio santo Padre benzeu...
Com o passamento de Diego passa tanto quanto a maioridade gauche da bola, fato que ao vê-lo falar de Rivellino (seu ídolo) fica evidente: siempre com la surda...
Há em Maradona tantos e tão encantados momentos a desafiar o jogo da vida que me permito não contrapor a memória, na esperança de seguir vivendo o sonho de ter convivido com a magia de Diego, na eternização de uma geração que se acostumou com o encanto do desencanto.
Diego mal acostumou-nos ao desencanto, justamente porque ele proporcionaria o encanto. Deve ser por isso que alguns apaixonados mais radicais, em Argentina, criaram uma religião (igreja maradoniana) cujo Deus é o próprio diez ...
Quem fez do diez um Deus foram os súditos que, por circunstância latina, preferiram idolatrar um Deus em lugar de um rei.
E ninguém criou mais do que Maradona nos últimos quarenta anos. Artista genial, de repertório inesgotável, Diego desafiava lógica e física nas quatro linhas, ressignificando a antiga versão de distância entre dois pontos que Garrincha imortalizara anos atrás: nem sempre uma linha reta desenha o menor caminho...
Assim, como un acróbata demente saltaré sobre el abismo de tu escote, hasta sentir que enloquecí tu corazón de libertad ...
Sim Diego, você encheu nossos corações latinos de liberdade, posto que nada é mais livre que o gol – e o gol dos gauches é sempre mais belo, mais significativo, mais gol; e isso deve bastar por hora, que a hora triste é a de despedir de você ainda vivo, posto que os gênios não morrem, tampouco deles deslembramos.
Ser gênio para Maradona significava cultuar Diego, o canhoto, sobre todas as coisas, pois foi para milhares de iguais a nós que o gênio luziu...
Foram quarenta anos de puro encantamento. Um amor em estado bruto: dele, Diego, para com a vida e da vida para com ele, Maradona – deve ser por isso que o cânhamo lhe seguiu de perto, desde sempre...
Vá e leve junto sua profusão de sentimentos Maradona, que o mundo gris de teu desencanto não é senão o reflexo de um multiverso partido no ovo da serpente – nosso último adversário a ser vencido, enquanto inimigo declarado da humanidade.
Nós outros, de nossa parte, seguimos na peleia, órfãos de Vossa grandeza Comandante. Hasta siempre Diego. Até a vitória, Maradona!
João dos Santos Gomes Filho, Advogado


