ESPAÇO ABERTO - A Esperança que nos conduz!
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
Espaço Aberto 
Ao fecharmos a porta de 2019 e escancaramos as janelas para 2020, tomamos necessariamente uma postura propositiva de abertura ao novo, que irrompe como a aurora, deixando vislumbrar o calor do meio dia. Por outro lado, fazemos um exercício de avaliação do que foi vivido e, entre críticas justas e oportunas, somos gratos por termos participado da história que o ano findo nos proporcionou. Gratidão é uma das palavras mais densas e sugestivas que encontramos.
2019 foi o último ano de uma década, que já é apontada como o grande palco das maiores mudanças no mundo pós-moderno. A volta da Direita, se consolidando em praticamente todos os Continentes, mas de modo especial na América e na Europa, ressuscitou agendas com tons de nacionalismo, xenofobia, racismo e o que talvez não fosse tão esperado, a união da religião com o poder em vários países. Um fenômeno mais ligado ao mundo pentecostal evangélico do que outras vertentes, mas encontrando eco também em vários setores, nomeadamente católicos. Grandes manifestações pelo mundo afora, questionam sistemas políticos e econômicos e o uso da internet e das mídias sociais tem colocado grandes pontos de interrogação sobre a sobrevivência da democracia, tal qual a conhecemos! A invasão das fake news criou um mundo da pós verdade que como muito bem sabemos, nos leva a acreditar em informações que não tenham nenhuma base na realidade, mas que confirmam uma visão bem peculiar de mundo. De fato, a crença tende a se afirmar sobre a argumentação racional.
O Brasil de 2019 não fugiu à regra. Trilhou esse caminho com um governo de inspiração econômica liberal, que tem deixado um rastro de desafio às instituições democráticas, ameaçando várias conquistas sociais pós redemocratização. O que mais tem projetado internacionalmente o país, de forma negativa, é a sua política ambiental.
No entanto, se há legitimidade em avaliar e criticar, é olhando para a frente que nos tornamos protagonistas e não apenas observadores. O grande vírus que precisamos eliminar chama-se laissez faire; uma expressão francesa paradigmática que caracteriza os que preferem ficar na janela da vida a descerem à rua e participar ativamente dela! São muitos o que sentem o peso da frustração e da decepção e por isso se refugiam na omissão e na observação. O ser humano não foi inventado para observar! Para ficar na torcida da vida sentado no sofá! Ele é literalmente protagonista. Jogador! Ele veste a camisa; vai a campo; defende o time; as suas ideias. Assim, ele passa do simples existir ao viver!
Uma das cores com que pintaremos este novo ano, será com certeza a da esperança. Quando todos afirmam que não tem jeito, que o mundo não dá certo, que tudo está no fim, é aí que devemos afirmar a força dos que creem. Dos que acreditam no homem e dos que em última análise acreditam em Deus. A esperança cristã é sempre a certeza de que o sol brilhará após a tempestade e de que a última palavra não é a do mal nem da própria morte. A esperança não é uma ideia; é um exercício! Devemos trabalhar com todas as forças para que o almejado se realize e faça jus à esperança que nos moveu!
Um ano novo é essencialmente um belo exercício de cidadania, solidariedade e respeito pelo semelhante. Nessa folha em branco, todos escreveremos um pouco e virará com certeza uma obra de arte! É assim quando estamos juntos na vida. Nos enriquecemos e tornamos a vida dos outros mais aprazível e agradável. No Brasil atual e porque não repetir, no mundo, a luta pela verdade e pelos preceitos científicos, a denúncia dos horrores que disseminam a mentira, a defesa intransigente da democracia e dos que são jogados para a sarjeta pelo economicismo, bem como a busca da harmonia e do bom senso que se perdeu, tornou-se urgente! Homens novos renovados pelos acontecimentos natalinos, são sempre pessoas que devem sonhar e lutar por um mundo melhor. A mediocridade ou o desejo de que tudo mude per si, não faz mais sentido! O brasileiro que se veste de branco na virada de ano, que faz mil e um propósitos para o ano seguinte e que brinda com os amigos e familiares, é sempre um otimista inveterado. Yuval Harari nos lembra, que se nem tudo entendemos, não entremos em pânico, sendo apocalíticos! Digamos apenas que “não estamos entendendo o que está acontecendo”! Ter esperança é ficar em pé, mesmo que o momento em que vivemos seja de profundas mudanças. E ei-lo! 2020! Onde também poderemos mudar, para melhor!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos
Arquidiocese de Londrina


