ESPAÇO ABERTO - A era da cegueira
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de outubro de 2004
Luiz Carlos Ferraz Manini 
Não vivemos em um tempo de paz, muito embora em vários meios de comunicação e mesmo nos círculos acadêmicos verifiquemos a propagação de tal imagem. Mas deveríamos nos perguntar qual seria o objetivo de tal modo de alarde de propaganda pacifista.
Não é uma guerra declarada que nós, enquanto seres humanos, vivenciamos em Israel? Ou mesmo no Iraque? Ou na longínqua Chechenia? Por não ouvirmos o assobio das balas, por não sentirmos o calor das explosões, por não sentirmos o cheiro da pólvora dos morteiros nos encontramos em tempos de paz?
Eric Hobsbawn, renomado historiador inglês, escreveu um livro chamado ''Era dos Extremos'', no qual faz uma lúcida análise sobre o que chamou de o ''breve século XX''. A era da guerra total não se acabou tão rapidamente quanto seu livro. Presenciamos o alvorecer de um tipo especial de guerra, no qual o objetivo especifico não é somente ganhar a batalha, mas sim eliminar completamente o adversário. Neste ponto lembramo-nos da famosa tira do viking Hagar, o terrível, que, em uma de suas lições ao seu filho, dizia-lhe: ''Lembre-se meu filho, o importante não é ganhar; o importante é humilhar o adversário''.
Conseguimos satirizar o temível espetáculo do morticínio indiscriminado, naturalizando a destruição e a violência, comportando-nos enquanto meros espectadores apáticos de mais um filme hollywoodiano. Nada mais assusta, e não vivemos mais a sensação de desconforto e angústia que marcou épocas já passadas na qual, pelo menos, a violência era institucionalizada. Em face do extremo, bestializamo-nos para não nos envolver, fugindo covardemente de problemas que são tão nossos quanto o mendigo que bate a porta e nos implora por um prato de comida.
Hannah Arendt já apontava para o perigo da apatia política, que permitira a origem dos movimentos totalitários, na Alemanha e na antiga União Soviética. Em especial nesta última, agiu de modo cru e grandemente devastador, permitindo que a cultura do medo se disseminasse de forma virulenta. Muito embora Arendt nos mostre que os regimes totalitários tenham, entre outros fatores, o culto da personalidade por base, a autora deveria atentar mais para o caso alemão do que para o soviético, que se construiu em nome do medo e da paranóia da delação, conquanto o primeiro tenha se erguido de forma orgulhosa sobre a figura do Fuhrer.
Mas a apatia social parece ser mais forte do que o caso apontado por nossa colega; os regimes por ela estudados não faziam questão de esconder suas vitimas. Os nossos revestem-se de capas de Justiça, em todos os sentidos possíveis, e não somente se cegam, mas nos tornam incapazes de enxergar aquilo que vemos frente a nossos olhos.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina


