Estudado pelas ciências de forma mais intensa a partir da década de 1970 o aquecimento global é um fenômeno climático amplamente divulgado e conhecido por grande parte das pessoas. Seu enunciado afirma que a temperatura média do planeta tem aumentado paulatinamente desde o século 19, por volta do ano de 1850. Assim, está associado à crescente industrialização e urbanização observada em diversos países ao redor do planeta nos últimos 160 anos.
Entre suas principais consequências estão o derretimento das geleiras nos polos, o aumento no nível dos oceanos e a mudança no regime de chuvas e ventos em muitas partes do mundo. Dessa forma, o aquecimento global pode ser considerado um fenômeno climático de larga escala e que afeta a vida de todos. Contudo, devemos compreender também a sua influência em outros aspectos.
Como um castelo de cartas que começa a desmoronar pelo alto, o aquecimento global afeta áreas que não estão diretamente relacionadas aos seus efeitos imediatos. A saúde pública é uma delas. O aumento das temperaturas expandiu e continuará a ampliar o espaço de atuação de diversas doenças tropicais, entre elas a dengue, a malária e o cólera. Dessa forma, doenças típicas de regiões menos desenvolvidas e muitas vezes associadas a situação de miséria da população, nos próximos anos, poderão ser encontradas em países desenvolvidos, localizados nas zonas temperadas do planeta. Uma situação que já na década de 1990 preocupava cientistas e médicos desses países, a partir da constatação de tal fato nos relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) e corroborada pelos dados fornecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
No caso do Brasil temos na dengue uma preocupação mais séria. Apesar da malária e do cólera serem registrados no país, a dengue vem mostrando nas últimas décadas sinais de avanço no número de casos e de mortes geradas principalmente pela recorrência em seu contágio. Portanto, uma doença que já tinha sido considerada controlada, devido ao uso de inseticidas e de melhorias no saneamento público, perdeu essa condição.
A dengue, que antes tinha um período de maior atividade entre março e maio, agora tem sido notada de forma acentuada em outros meses do ano e em regiões consideradas fora das áreas de atuação típica. Isto fez com que alguns especialistas mudassem a definição da dengue de uma epidemia para uma endemia. Ou seja, deixou de ser um problema esporádico para se tornar uma doença com a presença duradoura e que poderá atingir todo o País.
Evidente que a falta de conscientização da população somada à dificuldade (ou incapacidade) de organismos públicos na adoção de políticas de saúde são fatores preponderantes na proliferação da doença. Entretanto, o aquecimento global tem seu protagonismo. A expansão da dengue, tanto em seu sentido territorial quanto temporal, tem um vínculo profundo com a mudança climática provocada pelo aumento das temperaturas. A alteração no regime de chuvas e a umidade registrada em vários meses durante o ano têm levado a dengue a ser uma preocupação constante entre os agentes de saúde, culminando em auxiliar no colapso do sistema público de saúde. Algo registrado constantemente pela imprensa nacional nos últimos tempos.

ROGER D. COLACIOS é professor colaborador do Departamento de
História da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

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