ESPAÇO ABERTO - A crise dos clubes de futebol
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de agosto de 2009
Jurandir Barrozo 
Muito se tem falado sobre a crise financeira que assola a maioria dos clubes de do Brasil - mesmo aqueles bem administrados. Clubes da Argentina e da Europa também enfrentam problemas financeiros. Grande parte da imprensa debita essa crise à incompetência e a desonestidade dos dirigentes. É claro que existem dirigentes que agem com desonestidade, mas o problema não é só esse.
A falência financeira dos clubes está na dificuldade em equilibrar as receitas com as despesas. Há um desequilíbrio entre o que se arrecada e o que é gasto com manutenção e altos salários a alguns atletas e treinadores (são salários fora da realidade do País). É urgente uma união dos clubes no sentido de que todos entendam que, a continuar como está, os clubes irão à falência. Infelizmente, não é possível um clube subsistir somente com a renda dos jogos, e isto é fácil de comprovar observando a média de público pagante nos estádios. Se o público fosse quatro ou cinco vezes maior, mesmo assim as arrecadações seriam insuficientes.
Os clubes da Série A recebem um valor referente aos direitos de transmissão, mas também têm despesas elevadas se quiserem manter uma equipe competitiva. E se não conseguem manter um equilíbrio financeiro, quando surge uma revelação são forçados a vendê-la a uma equipe do exterior. Não temos condições de segurar nossas revelações, mesmo com toda a crise financeira mundial, pois as despesas com os salários de grande parte dos jogadores e treinadores são de primeiro mundo, mas as receitas são de terceiro mundo. Clubes melhor administrados, como Atlético-PR, Inter, Figueirense e São Paulo são obrigados a vender pelo menos um jogador de expressão a cada ano para cobrir o déficit financeiro.
O Atlético mesmo tendo uma boa administração tem ficado entre os últimos colocados. O Figueirense em 1998 formou uma empresa com a cotização de 30 empresários que fizeram um contrato de gestão com o clube por 20 anos. Até hoje não obtiveram qualquer retorno financeiro e vários sócios já deixaram a sociedade, o clube foi mal na Série A e caiu para a Série B. Estão sempre tentando negociar algum jogador para colocar as contas em dia, mesmo com o clube possuindo 12 mil sócios-futebol pagando uma média de R$ 40 por mês. Será que na Série B conseguirão manter essa receita? O Inter sagrou-se campeão e imediatamente negociou seus principais jogadores. O último foi o Nilmar.
A Lei Pelé ajudou a agravar a situação financeira dos clubes que investem na formação de jogadores. Para ter direitos sobre o atleta é necessário fazer um contrato com salário alto elevando a multa contratual e inviabilizando que outro time leve o jogador. Em consequência dessa lei, os jogadores saíram das mãos dos clubes e caíram nas mãos de empresários. Qualquer clube hoje que tem jogador formado em casa tem parceira com empresários que aliciaram o jogador no início da carreira e mantêm um vínculo com ele ou fez algum acerto com o pai do atleta. Ninguém consegue segurar um atleta com menos de 16 anos, e acima desta idade já tem um empresário como procurador ou dono de seus direitos financeiros. Só estão ganhando dinheiro com o futebol, os empresários que não gastam com a manutenção de um time profissional e apenas detêm um percentual sobre alguns jogadores.
Infelizmente a situação dos clubes brasileiros só tende a piorar nos próximos anos, pois estão altamente endividados e sem perspectivas de ter um equilíbrio financeiro. A venda de camisa e outros souvenirs é pouco representativa. Alguns clubes estão tentando arregimentar um número expressivo de sócios torcedores que pagam um mensalidade dando direito de acesso aos jogos. Entretanto, o time tem que estar entre os primeiros na classificação. E aí volta o círculo vicioso: atletas e treinadores de nome, altos salários e, consequentemente, déficit financeiro no final do ano.
JURANDIR BARROZO é empresário em Londrina


