Temos uma certa tendência a resolver nossos problemas de maneira pragmática. Pensar, às vezes, dói e traz desconforto. Mas há momentos que precisamos tomar uma decisão sem muito tempo para pensar. Isto, porém, deveria ser exceção. Ninguém deveria abrir mão de uma boa reflexão a partir de todos os possíveis contraditórios antes de tomar uma decisão relevante. Esgotar uma discussão até as últimas consequências, traz acréscimo ao ser humano e evita cair em erros irremediáveis. A simplificação é sedutora, mas é redutora e perigosa, e é recomendável guardar uma certa distância dos simplificadores. É voz corrente no folclore que toda a unanimidade é burra. É preciso porém, não aceitar a simplificação da afirmação e, se possível, qualificá-la também.
Consenso, relaciona-se a ser unânime numa decisão. Mas o consenso pode também estar relacionado a interesses de grupos. É difícil aplicar a idéia do consenso para toda uma coletividade. Ela poderá ser convencida disto depois. Num ano político fala-se muito em consenso e sua pertinência. Neste caso é preciso desconfiar dele. O consenso que resulta da unanimidade, pode ser de fato uma atitude ingênua, como pode também esconder acordos e interesses que nem todos ficam sabendo. Neste caso, o consenso pode ser prejudicial a uma coletividade e deveria ser questionado. Mas o consenso que resulta muitas vezes de processos dolorosos pode também trazer benefícios.
De qualquer forma, é preciso ter em mente as necessidades concretas e legítimas que motivam e constroem o consenso. Construir o consenso não é simplificar. Quando ele é fruto da simplificação, torna-se perigoso. O consenso deve exigir reflexão na qual ele pode ser desafiado a mudar gradual ou radicalmente se for preciso.
Em ''12 homens e uma sentença'', filme protagonizado por Jack Lemmon, além de outros artistas conhecidos, vemos 12 homens discutindo sobre a culpabilidade ou inocência do réu. Para não estragar quem quiser ter o prazer de assistir ao filme, registro que se trata de um exemplo emblemático que desconstrói um consenso simplificado para reconstruir outro em bases éticas e morais mais aceitáveis. O processo é exaustivo e doloroso, até para quem assiste. Mas a história contada no filme nos ensina a enxergar melhor nossos erros, permitindo que possamos emitir nossas opiniões com o cuidado necessário requerido para humanos que se prezam. Todos que vez por outra utilizam procedimentos consensuais e consideram isso relevante para o seu cotidiano, deveriam assistir ao filme.
A subjetividade que move a construção do consenso aponta para um instigante artigo escrito por Sérgio Paulo Rouanet, ensaísta e professor visitante na Universidade de Brasília. O artigo foi publicado pelo Caderno ''Mais'' da Folha de S. Paulo em 4 de janeiro. Num texto bem elaborado, o professor fala sobre os perigos que os simplificadores representam para a humanidade. Entre os principais simplificadores que marcaram o século XX, já que existiram tantos, aponta Adolf Hitler e Josef Stálin. Ambos simplificaram a história, reduzindo-a a um confronto maniqueísta entre o bem e o mal, e o resultado acabou sendo a produção em massa de seres humanos radicalmente simplificados, convertidos em cinzas e ossadas. De acordo com o ensaísta, não estamos livres de novos simplificadores no século XXI.
TARCÍSIO VANDERLINDE é professor da Unioeste no Campus de Marechal Cândido Rondon

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