ESPAÇO ABERTO - A Conferência de Meio Ambiente
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de setembro de 2003
Luiz Eduardo Cheida 
Quando soube que traficantes de animais do Paraná quebram o osso do peito dos filhotes das aves que capturam para que, trespassados pela imensa dor fiquem quietinhos, não se movam e não façam barulho, denunciando-os, eu não acreditei. Depois que vi isso com meus próprios olhos, me convenci também que, em nosso Estado, o tráfico de animais silvestres é um dos maiores do País.
Mas, infelizmente, não é só isso que causa indignação. O Paraná era apenas um borrão verde, rasgado de todos os lados por rios azuis, no mapa de 100 anos atrás. Hoje, não tem sequer 1% das florestas de araucária, sua árvore símbolo. Vai-se o pinheiro-do-paraná, vai-se a canela, a imbuia, a peroba-rosa e, com eles vão o lobo-guará, a gralha azul e tantas obras primas que a natureza pacientemente esculpiu como fina bordadura viva que enfeita nosso Estado nestes últimos duzentos milhões de anos.
O Paraná produz mais de 8 mil toneladas de lixo, todos os dias. É o campeão nacional, no uso de agrotóxicos. Boa parte de seus rios tem algum grau de poluição: é o mesmo agrotóxico da lavoura; o esgoto de casas, de alguns hospitais e de muitas fábricas. Para dentro dos rios também vai parte do nosso solo fértil.
Na maioria das cidades, as árvores cederam ao cimento e ao asfalto. Nelas, os sagrados fundos-de-vale ocupam-se por moradias de baixa renda ou depósitos de lixo. É nas cidades, onde hoje vive a maioria dos paranaenses, o lugar em que as pessoas sentem as agressões ambientais mais de perto. É aí que se convive com o ruído de um trânsito ensurdecedor e com o ar carregado de fumaça e ácidos. É nas cidades, porém, que desejamos de volta a perdida natureza, inda que resumida a uma pequena praça e, muitas vezes, recebemos como consolo apenas um pálido sol que se espreme por entre prédios.
Bem, não é preciso que seja assim.
Quantos de nós viveu a infância no meio do mato, aprendeu a nadar em ''córgo'' e já pescou lambari? Quantos de nós conhece o canto de um sabiá, sabe o que é carrapato, arranha-gato e urtiga? Quantos de nós engole seco quando lembra do cheiro do feijão na panela do fogão a lenha, e do café no coador de pano e, depois, da fumaça dançarina saindo pelo bico do bule esmaltado?
Pois, se nos lembramos disso e muito mais, o Paraná que queremos de volta ainda existe. Mesmo que dentro de nós. E, se existe dentro, é possível recolocarmos para fora.
É isso que as Conferências Regionais de Meio Ambiente do Paraná vão fazer a partir de hoje. Serão vinte delas. Uma em cada região, para que a dona de casa, o trabalhador, o empresário, o estudante, o aposentado participem.
As pessoas vão poder falar à vontade e as conclusões serão levadas a sério. Mais sério, ainda, se você participar. Venha, vamos repintar de verde o mapa do Paraná!
LUIZ EDUARDO CHEIDA é secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná


