Insônia, terrores noturnos, convulsões, falta de apetite, caprichos, perda de urina e fezes de dia ou à noite, agressividade, dificuldades para socializar-se, etc, são sinais de alerta de uma grave neurose: a teledependência, (televisione) que é o vicio na televisão, vídeo, videogames, Internet. Uma pesquisa recente mostra que 81% das crianças de 6 a 11 anos passam mais de 3 horas por dia na frente da telinha (revista Época de 3/11/2003).
Durante o sono, o ser humano se identifica com a ação e as imagens do sonho, enquanto muitas funções vitais estão em uma espécie de hibernação. Isto permite descanso, reposição de estoques de energia. O objetivo do sono é manter a pessoa adormecida e também livrá-la de ansiedades persecutórias.
Diante da telinha (TV, computador) o processo de identificação é o mesmo, mas não há o repouso necessário do sono. É como ''sonhar acordado''. Durante o sonho a mente experimenta a ''projeção de imagens'' que já estão armazenadas no cérebro e são o resultado das experiências reais. No transcorrer dos filmes e vídeos, as imagens e sons são impostas, pré-fabricadas, vem de fora para dentro e por isso quando há uma exposição excessiva a estas imagens e sons, o processo natural de fantasias fica prejudicado. A identificação projetiva com os heróis é muito forte e nos casos extremos pode ser muito prejudicial ao adequado funcionamento cerebral levando à falta de criatividade, distúrbios de memória e atenção, agressividade e até com riscos de lesões corporais devido à forte tendência à imitação dos super-heróis.
A introjeção de cenas de violência sem sentimentos e reflexão pode levar a crimes grotescos de uma crueldade indescritível, como o crime de Manila (Filipinas) onde em 1993 uma criança de 7 anos fuzilou a empregada de 21 anos que mudou de canal para assistir uma novela. A criança viu interrompida a sua ''alucinação'' de ficção científica e por não estar preparada para lidar com aquela situação real apelou para as suas fantasias e executou a pobre moça. O pai foi acusado de homicídio por imprudência.
As experiências reais e significativas são oferecidas à criança e ao adolescente de maneira lenta, repetitiva e desse modo permitem o amadurecimento lento e gradual do psiquismo. Ao contrário a avalanche de imagens e sons invadem a mente sem processamento, formando uma bola de neve que confunde, irrita e soterra as mentes incautas.
Todo processo de aprendizagem é longo, difícil e necessariamente precisa passar pela frustração, pelo limite. O ser humano não pode viver à mercê de sensações e do prazer imediato que é oferecido de forma barata e contínua pela telinha. A criança continuamente envolvida na TV ou navegando no computador, penetra de tal forma na imagem do herói que age, fala e pensa como ele. Achando-se possuidora de poderes invencíveis pode tentar agredir os amigos ou familiares de modo inexplicável e sem sentimentos. É nesta hora que o limite torna-se indispensável pois através dele a criança consegue descobrir que não tem superpoderes, não pode fazer tudo o que quer.
Enfim, o limite obriga a criança ou o adolescente diferenciar entre a fantasia e a realidade, faz com que separe o seu ego do ego do herói, funciona como um quebra-molas redutor da onipotência infantil. Ao contrário, a televisão (vídeo e etc.) induz a regressões profundas que bloqueiam a capacidade de pensar, crises de cólera, desânimo e apatia.
A TV em excesso aliena, instala o império das sensações, inocula idéias de corrupção, violência e sexo ''por baixo do pano'' sem passar pela reflexão, transformando seres humanos em ''humanóides'' sem afeto, pessoas em números, assassinatos em vitória. Uma legião de jovens recrutados pelos chips, treinados em campos de concentração on-line para a destruição do afeto e da família na sociedade do ''tô nem aí''.
CALVINO COUTINHO FERNANDES é sexólogo e ginecologista em Londrina

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