Qual a empresa que nunca passou por uma crise? E, se ainda não passou, é bom se preparar porque, seguramente, ainda vai passar por ela. Não importa a intensidade, porque uma crise pode custar milhões ou ''apenas'' trazer problemas embaraçosos, difíceis de serem contornados e esquecidos. O presidente Lula que o diga! Mas, convenhamos, se a equipe de assessores do presidente tivesse um manual de crise, a condução do desconforto gerado com a reportagem publicada pelo NYT teria sido bem outra. Quem não tem regras definidas para enfrentar situações delicadas parte para o desespero e age pela emoção. O desfecho mostrou total imaturidade do governo e incapacidade de tirar proveito positivo de uma situação aparentemente negativa.
A condução do episódio que culminou na tentativa de conserto de uma situação repercutida internacionalmente, deixou uma dúvida que não conseguiu ser respondida: o presidente bebe ou não bebe? A tentativa de expulsão do jornalista americano só conseguiu mostrar uma atitude autoritária e de revanche, como se o problema realmente existisse e tenha passado a ser público porque um jornalista ''non grato'' transformou-o em notícia. A manifestação da Federação Nacional dos Jornalistas condenando a redação da notícia por pontos de vistas técnicos, era o suficiente para mostrar que tudo não passava de uma mentira escrita por um ''mau'' jornalista que não aprendeu a lição de casa.
No entanto, todas as manifestações contrárias à redação do texto publicado pelo NYT foram conceituadas pelos principais jornais brasileiros em artigos e matérias que alimentaram os veículos durante vários dias, mostrando que o texto do jornalista Larry Rohter era tendencioso ao ouvir somente fontes contrárias ao governo e outras sem contextualização. Mas, é bom lembrar que o Brasil tem 174,5 milhões de habitantes e a tiragem diária do jornal que mais vende no país não chega a 900 mil exemplares. Por isso, a grande massa ficou sem resposta: o presidente bebe ou não bebe?
Ou seja, o problema criado com a publicação do texto pelo jornal americano era muito mais simples de ter sido resolvido. Se a Presidência da República tivesse um manual de crise saberia que uma das regras é não ampliar os fatos e efeitos negativos quando a crise se instala e a outra é tomar a iniciativa para dar a sua versão dos fatos, ao invés de incorporar a versão detetive e policial para punir e expulsar o problema, como se isso fosse possível. Nenhuma empresa, trazendo a discussão para o mercado, consegue simplesmente comprar uma passagem de ida para o ''incômodo'', enviando-o para outro país, e fazer com que a crise desapareça.
O presidente deveria ter falado imediatamente com o povo e aproveitado para aumentar os índices da pesquisa de opinião pública. Perdeu uma excelente oportunidade de satirizar os ''gringos'' e fortalecer a confiança da sociedade no governo. A cachaça, realmente, embriagou o governo, sem contar que os assessores de Lula se esqueceram da biografia do presidente Lula, publicada em 2002, em que a ''cachaça'' acompanha a história de vida da família do presidente.
CLÁUDIA ROMARIZ é jornalista e mestre em Comunicação Social em Londrina

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