A história é bem conhecida. Conquista e expansão territorial. Direitos diferentes para a etnia dominante: proibição de casamentos mistos, confisco de propriedade, proibição do exercício profissional, tentativa de eliminação sistemática de outras etnias pela deportação ou pelo extermínio. E não se trata neste caso apenas da Alemanha Nazista.
De fato, o que denominamos Estado Moderno, surgiu no século XIX baseado nas ideologias nacionalistas. A América não está fora deste contexto. O debate sobre o que a elite denominava o ''problema da escravidão'' é sintomático neste sentido.
Nos Estados Unidos a crença de que os negros eram inferiores e incapazes de uma vivência republicana compartilhada com os brancos, vai reforçar a tendência segregacionista legislativa introduzida desde o século XVII superada somente com os movimentos de direitos civis.
No Brasil, o racismo científico do século XIX e de boa parte do XX, consolida uma exclusão dos negros, somente posta em causa no momento presente. O fato é que este pressuposto de uma identidade nacional cunhada no século XIX vai levar, com o desenvolvimento científico, ao desenvolvimento de programas de eugenia em quase todo o mundo.
Por outro lado, a construção do Estado e da Nação fundou-se também na ideia de direitos políticos - contra a ideia de direitos de nascimento do Antigo Regime - o que representa ao cabo, a invenção da contra mola de resistência a este movimento homogeneizador, em nome da pluralidade cultural, religiosa, linguística, de gênero, sexual, etc.
Assim de um lado, há o Estado Nacional - cuja variante extrema é a do tipo ''nacht und nebel'' (noite e neblina), isto é, nazifascista e de outro os movimentos sociais que fizeram avançar a democracia pluriétnica, multicultural e agregadora.
No século XXI novos fundamentalismos surgem, sendo o religioso um dos mais evidentes. A democracia moderna encontra-se sob a ameaça de novos movimentos de tipo ''nacht und nebel''. Quando a vida pública se organiza a partir de princípios religiosos, não importa o nome do livro - Bíblia, Torá ou Alcorão - está-se diante de uma situação perigosíssima, pois representa a possibilidade do fim de um mundo humano, que é por definição diverso e plural, em nome da unicidade, pouco importa se cristã, judaica ou islâmica.
E quem duvida disto que veja os fundamentos da ''nova cruzada'', desta vez contra o terror, dos Estados Unidos, os apedrejamentos e outros horrores no Iraque e no Irã ou a diferenciação política entre árabes e israelitas em Israel bem como extermínio de palestinos pelos governos daquele país.
Este último exemplo é o mais chocante sinal de que as liberdades e a democracia estão sob ameaça de extinção. O Estado de Israel é o que mais deveria compreender o que representa o extermínio de um povo na história e, portanto, dar o maior exemplo e exercer a liderança nos processos de paz em termos globais atualmente, demonstra apenas que aprendeu a sofismar e agir politicamente como os algozes dos judeus na Europa de meados do século XX.
Sempre se deseja paz para o Ano Novo. A questão aflitiva é saber se é possível paz sem liberdades, e mais, sem ações concretas que afirmem e consolidem estas liberdades.
JOSÉ MIGUEL ARIAS NETO é professor de História Moderna e Contemporânea na Universidade Estadual de Londrina

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