ESPAÇO ABERTO - 2005, o ano mágico
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terça-feira, 21 de dezembro de 2004
Gaudêncio Torquato 
Um governo de quatro anos costuma receber duas leituras. Uma, de natureza endógena, é feita pelos atores do palco administrativo, a começar pelo presidente da República. A outra é exógena e abriga as interpretações de grupos e instituições da sociedade, como a imprensa. A concordância que eventualmente possa existir entre elas diz mais respeito às características dos ciclos governamentais do que às ações desenvolvidas. Nesse sentido, a sociedade é condescendente com o governo no primeiro ano, começa a cobrar resultados no segundo, acentua as críticas no terceiro e toma posições favoráveis ou desfavoráveis no último ano da administração, quando joga nas urnas seu veredicto.
Da parte do governo, o primeiro ano é para reconhecimento da casa, ocupação de espaços e fixação de estacas administrativas; o segundo é o de ajustes na máquina, apresentação dos primeiros resultados e consolidação de programas; o terceiro se destina a apresentar grandes trunfos, que serão ampliados e trombeteados no quarto ano, ocasião em que o governante corre o país para colher os louros.
Tanto na visão administrativa quanto na radiografia feita pela sociedade, o terceiro ano constitui período decisivo para se arrumar as condições que viabilizem um segundo mandato. Desse modo, 2005 será o ano de vida ou morte para Luiz Inácio Lula da Silva. Os resultados tão ansiados pelos conjuntos sociais, até o momento, foram bem inferiores aos planejados. As demandas de setores organizados apontam para a efervescência de pressões, a partir do primeiro trimestre do próximo ano, não se descartando a hipótese de grandes focos de tensão no campo e forte mobilização em pólos urbanos.
O paradoxo estará no centro do debate. O Brasil está chegando ao final de 2004 com projeção de expansão econômica em torno de 5% e índices de desemprego em queda. Se o PIB fosse indicador exclusivo da performance governamental, Lula abriria o ano viajando em céu de brigadeiro. Mas há um outro Produto Nacional Bruto, que é o da Felicidade, a se considerar na equação social e é este que conta na hora do vamos ver quem vai levar a melhor.
Os empuxos advirão tanto da direção centrípeta quanto na direção centrifuga. Das margens para o centro, estará agitando bandeiras, enxadas (e, quem sabe, outras coisas), o MST. O Movimento avisa que abril de 2005 será o mais vermelho de sua história. O aparato policial do país, queixoso, poderá escancarar o fluxo centrífugo. Polícias militares e civis se preparam para a reivindicação de melhores salários. Na Polícia Federal, focos de insatisfação se ampliam, deixando ver a divisão política entre núcleos. Militares das três forças esperam que, na abertura do ano, negociações por reajustes sejam retomadas. Grupos de sem teto prometem continuar ocupando prédios. As classes médias não se calarão ante a perda de poder aquisitivo.
A administração dos conflitos deverá tomar grande tempo da administração federal. Tempo que será evidentemente subtraído de espaços de planejamento e execução de tarefas. Como se pode deduzir, para Lula e seu governo, 2005 será o Ano Mágico, epíteto adequado para expressar a difícil tarefa de chupar cana e assoviar ao mesmo tempo.
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP e consultor político


