Uma questão que se coloca 40 anos depois do golpe militar de 1964 talvez seja por que lembrar esse fato da nossa história republicana recente? Esse tipo de interrogação se coloca para vários acontecimentos na História e em vários casos lembrar significa ''comemorar''. Por isso existem os feriados, e as ''datas comemorativas'', que acontecem principalmente nos anos escolares. Todos passamos por isso quando fomos alunos. Entretanto, em casos como essa data de agora, certamente não se pode falar em ''comemorar''. Então, por que lembrar? Nesses casos lembrar, rememorar, tem um sentido muito diferente: significa tirar do esquecimento aquilo que durante muito tempo tentaram apagar das nossas memórias.
Então, como se chegou ao golpe? Quais os ''fatos'' que levaram a esse desfecho? Um bom exercício é acompanhar, através da imprensa escrita, os momentos que antecederam ao golpe de 1964 e observar o clima que foi se criando, de medo do comunismo, da desordem, de mudanças para a sociedade.
Acompanhando através da imprensa os dias que antecederam ao golpe, podemos perceber a extensão da campanha feita pelos setores médios e pela burguesia brasileira, contra o governo Goulart. O argumento básico da ''luta'' que se travava então era, mais uma vez, o anticomunismo, a ameaça à família, à Pátria, à democracia e à liberdade. Tais temas podem ser constatados através do discurso de vários personagens daquele momento histórico. Por exemplo, o manifesto do II Exército publicado nos jornais, deixava claro que ao dar esse ''passo de extrema responsabilidade'' almejava-se, sobretudo, manter os poderes constituídos da ordem e da tranquilidade. A luta que se travava voltava-se principalmente contra o ''cerco do comunismo, que ora compromete e dissolve a autoridade do governo da República''.
De uma maneira geral a imprensa apontava em várias passagens a existência de um clima de intranquilidade no país. Durante todo o mês de março a imprensa apontava um tal clima de ''ameaças'' no país que o desfecho parecia ''previsível'': o Golpe de Estado. O apoio de alguns nomes à ''causa revolucionária'' de 64 pode ser visto através de vários manifestos. Políticos como Adhemar de Barros, Magalhães Pinto e Carlos Lacerda mostravam o seu repúdio ao governo Goulart e a tudo aquilo que o mesmo representava.
Para quem acompanha as reportagens dos dias que antecedem ao golpe através da imprensa, também fica muito claro que não se fazia a mínima idéia das proporções que aquele movimento de 1964, que se pretendia uma ''revolução'', tomaria no futuro. No momento mesmo da deposição de João Goulart, já existiam cuidados em apresentar a sucessão não como o que de fato ela foi: a derrubada de um presidente eleito pelo povo, pela força das armas. Tais cuidados visavam, sobretudo, operar uma ''mudança de fachada'' no golpe de Estado, metamorfoseando-o em revolução, que teria sido feita em nome do povo, para resguardar a ordem, a tranquilidade e a democracia. Ou seja, um golpe transformado em uma ''revolução'' que foi ''comemorada'' por muitos, alguns ingênuos outros nem tanto, durante muito tempo. Tempo demais para ser esquecido. Daí, por que lembrar.
MARIA DE FÁTIMA DA CUNHA é professora do departamento de História da Universidade Estadual de Londrina

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