Esmola envergonhada - Arlete Salvador
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terça-feira, 08 de dezembro de 1998
Arlete Salvador 
Outro dia, um senhor de terno e gravata parava carros na avenida Paulista para pedir esmola. Pode me ajudar? Estou desempregado, dizia. Pode até ser uma grande mentira para se aproveitar da caridade alheia, mas o coração vai se apertando à medida que cenas como essa tomam conta da cidade. Não há nada mais humilhante do que um trabalhador desempregado. Numa cidade como São Paulo, industrializada e superpopulosa, a cara do desemprego está em todas as esquinas. Em casa, entre os amigos, são muitas as histórias de desempregados em busca de uma vaga, uma oportunidade.
Até agora, as ações do governo federal contra o desemprego transformaram-se apenas em humilhações maiores para o trabalhador. É o caso da suspensão temporária do contrato de trabalho, para citar um exemplo recente. Os funcionários fizeram uma escolha tão cruel quanto a de Sofia - ficar sem o emprego ou aceitar uma redução de até 70% do salário para continuar com a carteira assinada. Fazer o quê, né?, perguntava uma trabalhadora, os olhos tristes e assustados com a perspectiva de um futuro sombrio.
Grandes empresas nunca jogaram tão pesado quanto nesse momento, quando o desemprego ronda o sono das famílias brasileiras. A Volkswagen do Brasil chegou à proposta imoral de não pagar o 13º salário dos metalúrgicos. A montadora voltou atrás, como já se esperava, mas arrancou tudo o mais que podia dos trabalhadores. Indústrias de brinquedos queriam pagar seus funcionários com produtos. Hoje, emprego é dádiva, favor. Qualquer emprego serve, pague bem ou mal. Pouco importam as condições de trabalho, as horas trabalhadas a mais, o reconhecimento. O salário no final do mês, que vale a comida, remédio e roupas para as crianças, precisa chegar.
O avanço tecnológico, desde a Revolução Industrial, sempre veio acompanhado de promessas de um futuro promissor e tranquilo para o trabalhador. Com a mecanização e, depois, com a automação dos serviços, previa-se que o homem teria mais tempo para sua família, seu lazer, suas viagens. Trabalharia menos, mas de forma mais eficiente. Conversa fiada para vender mais computador. O avanço tecnológico jogou o homem de volta ao período pré-revolução industrial, ao estágio em que não havia leis ou garantias de vida para o trabalhador.
Fala-se muito sobre esse horror econômico, onde não haverá mais emprego para um determinado número de pessoas. Os catastrofistas prevêem o surgimento de multidões de desempregados famintos nas grandes cidades do mundo. Os mais otimistas acreditam que haverá uma transformação no conceito de emprego. O homem passará ser uma pequena empresa, fazendo serviços em casa ou trabalhando por conta própria.
As discussões teóricas sobre o futuro do emprego é um tema fascinante entre os estudiosos, todos eles empregados, é claro. Quando um desempregado pede uma esmola na esquina ou tenta te empurrar um conjunto de panelas na rua, não há teoria que amenize o sofrimento e a humilhação. Não é possível deixar de pensar que todas as conquistas tecnológicas, celebradas como o máximo da capacidade criativa humana, como sempre, ignoraram o próprio homem. Fizeram dele algo descartável.
Quando aquele desempregado de terno e gravata me pediu uma esmola na avenida Paulista, eu dei. Não por compaixão. Por vergonha. Vergonha dos caminhos que a humanidade vem seguindo.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo.


