Escrever nosso próprio horóscopo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de janeiro de 1997
Walmor Maccarini 
O horoscopista deste jornal, sempre que entrava em férias, costumava deixar escritos os horóscopos para o período em que ficava ausente. Mas certa ocasião disse que, daquela vez, não seria possível. Então, à revelia do titular, resolvemos que nós mesmos os faríamos. A decisão tomada era que só falaríamos coisas positivas, já que, ao contrário dele, não tínhamos acesso aos astros... Como, na Redação, havia gente de todos os signos, cada qual escreveria sobre o seu, seguindo o mesmo diapasão: que tudo haveria de ser favorável. E assim fizemos, durante um mês. Os leitores acordavam, liam as previsões para orientar-se sobre como proceder na jornada que começava, e lá encontravam: dia favorável para o amor; propício para entabolar negócios; um amigo vai procurá-lo para dar uma boa notícia; aquele acontecimento bom que você espera acontecerá hoje; o dia será de muita sorte; sua mente está iluminada; aquele velho amor hoje está pensando em você, com muito carinho e boas lembranças; você não deve ter preocupação com suas dívidas, porque a conjunção da Terra com Vênus está irradiando muita energia e as riquezas estão fluindo; hoje você levantou com vontade de ligar para aquela pessoa com quem tem um ressentimento e dizer-lhe que tudo está bem; o dia está lindo, tudo dez!
Começamos a perceber, então, que as pessoas, a partir daí, mostravam-se mais sorridentes e felizes. Chegavam ao jornal cartas de leitores fazendo louvações às coisas boas, o noticiário policial era ameno, não se tinha notícia de eventos tristes, vimos muitos casais separados se reconciliarem, enfim, tudo progredia a olhos vistos. Foi um período de muita iluminação.
As pessoas liam e passavam a acreditar que o dia estava realmente ótimo, e tudo do melhor acontecia. Assim, ao posicionar-se positivamente diante da jornada que começava,escreviam seu próprio horóscopo.
Agora, revendo páginas de ensinamentos, encontro: Não há coisa alguma que tenha originado maiores fracassos e maior número de crimes indiretos que a fraude causada pela astrologia atual. E mais: Não é a chamada má sorte do destino que as pessoas precisam conhecer, mas a invencível presença divina, que a tudo preenche. Se a pessoa permitir que sua atenção se detenha nos maus presságios dos horóscopos, ela cairá em todos os abismos. O mal dos prognósticos negativos dos horóscopos é que as pessoas os aceitam mais do que querem admitir. A força sinistra contida na negatividade dos horóscopos atrai e prende a atenção e arrasta a pessoa para baixo, em vez de elevá-la. Quando, num horóscopo, é indicada a possibilidade de uma coisa ruim, várias mentes se fixam nessa idéia e indiretamente alguma coisa de ruim acontece. De forma tão sutil que os indivíduos ficariam horrorizados se lhes fosse demonstrado que tiveram nesse fato alguma participação. Se pudésseis ver, por um dia que fosse, a força destrutiva gerada através da influência negativa dos horóscopos, quando difundem maus presságios, fugirieis dela como de uma serpente venenosa.
Ainda não se explicou o fluxo e o refluxo das marés, porque isso acontece todos os dias, e sempre no mesmo horário, independente de a lua ser cheia ou nova, crescente ou minguante. Certamente que uma força desconhecida rege tudo isto, a mesma força que rege o pulsar da vida de todas as coisas. Melhor é acreditar que tudo isto é a simplicidade dos mistérios.
O que não pode é alguém que ocupa um espaço nos veículos de comunicação se julgar no direito de semear idéias de desgraça, como estas de que o dia é desfavorável para isto e aquilo, que as doenças nos rondam, que o fantasma do mal nos espreita, porque nisto não há nenhum embasamento científico. Sei, por conviver com os horoscopistas, que eles se valem de tabelas; que fantasiam, que alertam para os perigos, para poder mesclar isto com as boas novas. Assim, criam um disfarce de equilíbrio e sapiência, para nos manter atrelados.
Não devemos nos entregar ao negativismo desses profetas do apocalipse, porque se o fizermos atrairemos todo o mal que apregoam, e então o alerta dos horóscopos torna-se coisa verdadeira. Ao ler e acreditar no mal nós reeditaremos esse mal, e ele pode se manifestar.
Esta advertência que fazemos não é apenas para os que lêem, mas para os que escrevem. Eles não imaginam o mal que semeiam ao induzir os leitores para seus maus agouros.
Não se pode afirmar que os produtores de horóscopos agem de má fé, mas não há dúvida de que o fazem irresponsavelmente, ao difundir seus prognósticos sinistros. Porque não imaginam o poder da palavra, sobretudo quando apregoam alertas para as coisas ruins. Com isto, induzem a pessoa a acreditar nesse mal, e aí não mais a mente do horoscopista passa a prevalecer, mas a do paciente-vítima, que fixa seu pensamento negativo naquilo que acabou de ler, corporificando imagens. Todo o mal ali descrito, então, pode manifestar-se.
As pessoas se deixam influenciar pelo decreto dos horóscopos e a partir daí os decretos passam a ser delas mesmas, já que crêem. E com isto retraem-se, intimidam-se, adiam projetos, ficam propensas a seguir e a acreditar que o dia é desfavorável para isto e aquilo, e então desenham na mente todas essas coisas, dão-lhe formas. Fazem a previsão do horóscopo tornar-se realidade.
Horóscopos, é melhor não lê-los. Vamos, nós mesmos, ao amanhecer de cada dia, escrever nossas próprias previsões para a jornada que nos espera!


