Escravos do século 21
É de amplo conhecimento que o Brasil faz parte, há muito tempo, de rotas de tráfico de pessoas. O assunto já foi tema de novela de sucesso do horário nobre da Rede Globo de Televisão, "Salve Jorge", de Glória Perez. Mas um fenômeno está chamando atenção das autoridades brasileiras, a mudança do fluxo desse tipo de crime. É sobre isso que trata a reportagem principal de hoje da FOLHA.
Enquanto o número de inquéritos de tráfico internacional de pessoas vem caindo na Polícia Federal, crescem os registros dentro do País de entrega de filho menor a pessoa inidônea, redução à condição análoga a de escravo e tráfico nacional de pessoas para fim de exploração sexual.
No ano passado, uma pesquisa do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que compilou dados obtidos junto a 15 ministérios públicos estaduais, ao Ministério Público Militar e oito procuradorias regionais do trabalho, mostrou que no Brasil os registros de tráfico de pessoas nesses órgãos aumentaram de 218 no quinquênio 2003-2007 para 1.286 no período entre 2008 e 2012. No Paraná, a variação foi de 17 para 110 casos.
Fontes ouvidas pela FOLHA acreditam que a crise econômica mundial iniciada em 2008 e a relativa estabilidade brasileira provocaram uma alteração na rota do tráfico de seres humanos. Se antes o foco era o envio de vítimas para outros países, agora esse tipo de crime se voltou para a exploração dentro do Brasil e para a "importação" de trabalhadores estrangeiros. Eles vêm de países onde a oferta de emprego e as condições de vida estão ruins, como Haiti, Bangladesh, Paquistão e Nigéria e se submetem a situações de grande humilhação, análogas à escravidão.
O combate a esse tipo de crime passa por ações de prevenção, como a garantia aos direitos das crianças e adolescentes e boa educação dos trabalhadores, para que eles tenham acesso a cursos profissionalizantes e conheçam seus direitos e deveres. Na outra ponta, é preciso garantir o apoio às vítimas, sejam elas brasileiras ou estrangeiras, com atendimento jurídico, psicológico e social.





