Os vaidosos, lembra Francis Bacon, são o escárnio dos homens sábios, a admiração dos tolos, os ídolos dos parentes e amigos e os escravos de suas próprias jactâncias. Não há como deixar de associar o pensamento aos vaidosos que, nos últimos tempos, frequentam o Olimpo da glória, desfilando imagens numa passarela de purpurina, sob a trombeta de jornais interessados em editorializar conteúdos, multiplicar denúncias e versões parcializadas. A vaidade está queimando a alma de atores de três importantes instituições nacionais: o parlamento, o judiciário e a imprensa.
Políticos, juízes e jornalistas, ao exorbitarem em suas atividades rotineiras, exibem um ponto em comum: o afastamento da matriz ética de suas profissões. A extrapolação ocorre quando usam de expedientes para fazer prevalecer o opinismo, sobre a verdade dos fatos, conclusões sobre matérias ainda em andamento, inferências e julgamentos feitos de modo irresponsável. Como a competitividade se acirra, num momento em que a política ganha foro de um grande empreendimento, parlamentares procuram formas mais baratas e eficientes de aparecer. A CPI dos Precatórios é um exemplo. Ali, vicejam os novos heróis da moralidade nacional. Para assumir o perfil, agem como promotores de um tribunal de acusação, onde a severidade, que deveria dar o tom, está sendo substituída pela brutalidade, que gera ódio.
O deboche e o insulto usado por senadores, ao invés de servirem de mecanismos de pressão sobre as testemunhas, transformadas em réus, acabarão gerando o ‘‘efeito bumerangue’’. Muitos telespectadores da TV Senado, a tuba da glória pública, começam a se solidarizar com as testemunhas, de quem não se respeita nem os defeitos físicos. E é aí que reside o perigo: em função de métodos autoritários e abusivos, a CPI ameaça comprometer seu trabalho, perdendo a possibilidade histórica de desvendar os fios de uma malha de corrupção. Provas, documentos, é isso que falta. Perguntas e lições de casa mal feitas, exibição de perfomances, falta de assessoria técnica, repetições de questões e muita adjetivação completam a moldura capenga.
O judiciário também não escapa às vaidades, juízes, até o Supremo Tribunal Federal, tiraram passaporte para o Olimpo. O presidente da alta corte, Sepúlveda Pertence, em vias de deixar o cargo, não se tem furtado a opinar sobre os mais variados temas, alguns de natureza polêmica e complexa, para não se falar da querela pública envolvendo as competências entre os poderes executivo e judiciário. Outro passa a defender o aumento de 28,86% para o servidores federais, no recesso de uma sessão em que a questão estava sendo julgada, fazendo, portanto, pré-julgamento. A coisa vai mais longe. Juízes de instâncias e regiões diferentes passam a ocupar as páginas de jornais e revistas, manifestando-se abertamenta sobre assuntos em que deveriam manter absoluto resguardo ético. Assemelhando-se à políticos em campanha, magistrados falastrões, tocados pela competição e encantados pelo brilho da mídia, estão comprometendo os eixos da justiça. Só falta mesmo adotarem a ‘‘democrática’’ linguagem dos estádios de futebol.
A imprensa fecha o tripé das vaidades, pavimentando a estrada do verbo irresponsável. Generaliza, tira conclusões apressadas, dá manchete opinativa, condena testemunhas, e continua a dar diminutos espaços para desmentidos. Ofuscada pela ‘‘síndrome do escândalo’’, contenta-se com as primeiras versões. Repórteres deitam e rolam no cobertor da informação horizontal. Imaginam-se heróis do reconhecimento público, pequenos deuses do cotidiano. Jactam-se de matérias discriminatórias, que violam a intimidade das pessoas. Orgulham-se de sua própria incompetência. Quando políticos, juízes e jornalistas mancham a carta ética de sua missão, o estado feio da barbárie começa a dar as caras, ofuscando o horizonte de nossas esperanças.

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