ESCOLHA DO PAPA - 'Irei para a minha nova missão com a mesma disposição de sempre'
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Paula Costa Bonini<br> Reportagem Local 
Não penso em destacar-me, assumindo posições que me dariam quinze minutos de fama
Não vejo qual seria a vantagem de termos um papa brasileiro
Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, 67 anos, é o novo arcebispo primaz do Brasil. Ele foi nomeado pelo papa Bento XIV para assumir a Arquidiocese de Salvador, a primeira do País. Substitui o cardeal dom Geraldo Majella Agnelo, 77, que teve sua renúncia aceita pelo pontífice por ter superado o limite de idade de 75 anos. A cerimônia de posse está marcada para 25 de março.
Catarinense de Brusque (SC), dom Murilo Krieger ocupa hoje o cargo de arcebispo de Florianópolis. No currículo, coleciona passagens pelo Paraná. Entre 1991 e 1997 foi bispo de Ponta Grossa, de onde saiu para ao ser nomeado Arcebispo de Maringá, função que exerceu até 2002.
A nomeação foi recebida, revela o religioso, com ''grande surpresa.'' ''Disse meu sim ao Papa e, agora, irei para a minha nova missão com a mesma disposição com que enfrentei outras responsabilidades na Igreja'', afirma. Ressaltando não conhecer Salavador, dom Murilo disse que vai assumir o cargo sem contar ainda com programas de trabalho bem elaborados.
Nesta entrevista, o novo arcebispo primaz atribui a escolha do papa ao seu ''amor à Igreja'', ''fidelidade a seus ensinamentos'' e ''disposição de servi-la.'' E acrescenta, ainda, que sua capacidade de organização pode ter contribuído para que fosse o eleito.
O senhor esperava ser nomeado arcebispo primaz do Brasil ou foi surpreendido pela notícia?
Não estava em meus planos ir para a Bahia ou para qualquer outra diocese. Tinha, mentalmente, um programa de trabalhos para os próximos oito anos em Florianópolis. Mas estou na Igreja para servi-la da forma que ela precisa, não da forma que eu gostaria. Tinha certeza de que um outro irmão bispo, por suas qualidades, seria nomeado para a Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Por isso, foi com muita surpresa que recebi a nomeação. Destaco que para a nomeação não é feita uma consulta com a pessoa envolvida. Ora, como dizer um não a uma nomeação papal? Disse meu sim ao Papa Bento XVI e, agora, irei para a minha nova missão com a mesma disposição com que enfrentei outras responsabilidades na Igreja.
A que o senhor atribuiu a indicação do seu nome para o cargo?
Boa pergunta. Talvez a indicação tenha sido feita pelo meu amor à Igreja, pela minha fidelidade a seus ensinamentos, pela minha disposição de servi-la. Posso acrescentar um outro motivo: minha capacidade de organização.
Quais os principais desafios que acredita que terá que enfrentar?
Em primeiro lugar, vejo a necessidade de conhecer os padres. Muito do que um bispo consegue é por meio de seus sacerdotes. Quanto mais conhecê-los e estiver próximo deles, mais pessoas e objetivos poderei atingir. Outro desafio será o da formação do povo: o Documento de Aparecida, fruto da conferência episcopal realizada em 2007, insiste muito na necessidade de fazermos com que nosso povo conheça melhor as riquezas de sua fé. Vou com algumas perguntas no coração: como levar o povo de Deus a conhecer as riquezas da Palavra de Deus? Como conseguir que o conteúdo do Catecismo Católico seja melhor assimilado por todos? De que maneira agir para que as pessoas descubram as pérolas todas que Jesus Cristo deixou à sua Igreja?
Como o senhor se posiciona diante de assuntos polêmicos que envolvem a Igreja Católica, como a discussão em torno do celibato e do uso de métodos contraceptivos?
Posiciono-me a favor de tudo o que a Igreja defende. Não tenho bandeiras próprias; não penso em destacar-me, assumindo posições que me dariam quinze minutos de fama, mas que seriam uma traição à minha Igreja. Penso que um grande desafio que nós, responsáveis pela Igreja, temos pela frente, seja o de fazer as pessoas entenderem que certas posições da Igreja - lembro-me, também, do aborto - são em defesa da vida, da dignidade da pessoa humana, em resposta aos valores que Jesus Cristo veio nos trazer para que tenhamos vida em abundância.
No caso do celibato, é preciso levar em conta a longa experiência da Igreja, que quer ver seus sacerdotes vivendo como Jesus, sendo totalmente do Pai e totalmente dos irmãos.
Os casos de pedofilia envolvendo padres tiveram uma grande repercussão no ano passado. Muitos alegaram que a Igreja não se posicionou de forma enfática diante das denúncias. Como o senhor enxerga essa situação?
Se alguém falar que a Igreja não se posicionou de forma enfática diante das denúncias de pedofilia demonstraria não ter lido os repetidos e fortes discursos do Papa Bento XVI. Digo isso levando em conta que tal problema não é exclusivo da Igreja, mas de muitos outros setores da sociedade. Só que as notícias que mais repercutiram foram as que envolviam a Igreja. Atribuir esse grave comportamento ao celibato é demonstrar uma ignorância enorme. Mas, é realmente triste e lamentável que um sacerdote, que livremente assumiu a causa do Evangelho, prejudique uma criança que for. Por isso, tudo o que se fizer para que tais comportamentos não se repitam será sempre pouco.
Quais são as chances reais do Vaticano eleger um para brasileiro num futuro próximo?
O futuro a Deus pertence, diz o povo em sua sabedoria. Não vejo qual seria a vantagem de termos um papa brasileiro. Desejo que o Espírito Santo prepare desde já o coração daquele que, um dia, Ele quiser escolher para essa missão.


