Escolha de Sofia
Quanto mais as convenções partidárias se aproximam, mais tenso se torna o cenário político. É um momento de definições e, levando-se em conta as restrições impostas pela regra da verticalização das coligações, é quase certo que nem todos os interesses políticos serão contemplados. Alguém terá de ir para o sacrifício, retirando ou mantendo candidaturas sem nenhuma expressão eleitoral.
Os partidos vivem o dilema de privilegiar seus projetos nacionais, apoiando este ou aquele nome para presidente, ou buscar representação maior no Congresso. Em alguns casos, é uma espécie de escolha de Sofia, uma referência ao filme de mesmo nome em que a protagonista é obrigada pelos nazistas a escolher um dos dois filhos. O preterido estaria destinado à câmara de gás.
O melhor exemplo desse dilema é o PL, ainda às voltas com a conveniência ou não de uma união com o PT de Luiz Inácio Lula da Silva. O partido vem tentando se organizar internamente, criar uma cara e uma identidade. Sua prioridade era garantir uma grande bancada federal, como forma de enfrentar a chamada cláusula de barreira. Essa cláusula exige dos partidos uma representação parlamentar mínima, para ter direito a tempo na televisão e recursos do Fundo Partidário. Valerá a partir de 2006.
O cenário nacional apresentou uma outra alternativa ao PL associar-se a Lula, numa coligação de oposição. Assim, o partido assumiria uma posição política clara, já que padece da fama de ser uma legenda amorfa. Nesta semana, o PL deve decidir que rumo tomará. Nos estados, há situações em que uma união com o PT é impossível. Um desses casos é o Rio Grande do Sul. Também do lado petista se escolhe. Para possibilitar a coligação nacional, o partido teria de abrir mão de candidaturas nos estados, favorecendo o PL.
O PMDB vive dilema semelhante. Neste momento, para boa parte do partido, nem é o apoio à candidatura do senador José Serra (PSDB) o impedimento para uma coligação oficial entre os dois. O problema é que a união nacional atrapalha os planos de algumas regionais do PMDB nos estados.
O PSB, por sua vez, escolheu o projeto nacional. A direção do partido acredita que a candidatura de Anthony Garotinho à Presidência da República atrairá votos suficientes para garantir a eleição de uma bancada representativa no Congresso, mesmo no caso de uma derrota.
A tradição política costuma fazer uma distinção entre eleição majoritária e proporcional. Por isso, além de um bom nome a presidente, é preciso um bom nome para disputar o governo e puxadores de votos entre os candidatos a deputado. O PSB vai mostrar, na prática, se essa tese é verdadeira ou pura lenda. As dificuldades para a acomodação de tantos interesses, com as convenções se aproximando, explicam as indefinições do quadro atual. Para o eleitor, parece uma confusão geral. A notícia boa é que tem data para terminar: 30 de junho.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília





