Escola sem partido
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de abril de 2017
Fábio Cavazotti 
Li, recentemente, o conteúdo e as propostas do movimento "Escola Sem Partido", em busca da compreensão de sua real essência e valor. Minha conclusão é de que se trata de um movimento vazio no que toca ao mais importante desafio do País: propostas para a melhoria da qualidade da educação.
O conteúdo disponível na internet dá a impressão de que o problema preponderante das escolas brasileiras é a doutrinação esquerdista, o que considero uma equivocada generalização. Vejo tantos professores e professoras, com seus guarda-pós brancos por aí, e não me parece que façam parte de um exército vermelho em plena marcha no país. Creio que o viés ideológico é mais acentuado nas universidades - eu mesmo me ressenti do excesso de marxismo nas aulas de Jornalismo, mas nunca precisei deste tipo de movimento para me defender de ideias que eu mesmo poderia enfrentar.
Educação não se faz com doutrinação ideológica, mas me parece inerente ao ambiente de liberdade um residual de excessos que, mesmo indesejado, pode despertar pensamentos de contrapeso importantes para o engrandecimento dos alunos. A alternativa a isso seria um ambiente totalitário e esterilizante muito pior para o desenvolvimento pedagógico, educacional e criativo.
É de uma tristeza atroz que o movimento mais debatido sobre a educação no Brasil de hoje não tenha como peça central a melhoria de sua qualidade. Parece que, para a Escola Sem Partido, desde que as instituições de ensino não se transformem em centros da revolução marxista, tudo bem que não ensinem a contento o português, a matemática, as ciências, a interpretação de textos e outros elementos básicos para uma adequada formação pedagógica.
Além da incapacidade de educar de verdade nossos alunos (por razões variadas e complexas que não se encerram nas salas de aula e que deveriam, estas sim, estarem no centro das discussões!), a escola atual distancia-se das demandas de uma juventude de periferia acossada por desafios e dificuldades que a tem levado, em muitos casos, para mais perto do tráfico, do crime e da violência do que das universidades e da formação intelectual e profissional.
Ao invés de um movimento de tentações perigosamente difusas, seria desejável discutir formas práticas de coibir objetiva e pontualmente os excessos ideológicos reais. Também seria adequado o monitoramento da qualidade do professor a partir dos resultados gerados afinal, se o professor ensina marxismo ao invés de matemática, natural que avaliemos a performance dos alunos nas operações aritméticas.
Esta visão sobre o movimento acabou se fortalecendo diante de um vídeo disponível na internet, no qual um vereador de São Paulo, ligado ao MBL e à Escola Sem Partido, descreve uma "blitz" que realizou em escolas municipais para fiscalizar excessos ideológicos de professores. Ali, ele faz grandes elogios a uma das escolas visitadas, considerando-a um exemplo para o país, sem mencionar qualquer motivo que o tenha levado a esta conclusão.
Esta escola, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), ficou longe da meta de desempenho de 2015 na 8ª séria/9º ano índice de 5,2 e meta de 6,2. Na 4ª série/5º ano, a meta foi atingida com índice de 6,4. No meu tempo, a nota para se considerar minimamente satisfatório o desempenho escolar é 7,0 abaixo disso, é nota vermelha.
Sem entrar no mérito de suas dificuldades específicas, tomar como exemplo nacional uma instituição que não atinge a própria meta de desempenho equivale a colocar a ideologia acima da função maior de uma escola: a de ensinar. O conjunto dos fatos parece indicar que a Escola Sem Partido tem espaço para partido sim: desde que seja o de seus representantes...
Diante disso, venho reafirmar meu próprio partido para a necessária reforma escolar do país: menos ideologia e foco na qualidade da educação!
FÁBIO CAVAZOTTI é jornalista em Londrina
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