Escola pública. Uma reflexão
Osmani Costa
Vivo diariamente dentro da escola pública e gratuita há quase 30 anos. Pode parecer que não é muito, mas como tenho apenas 37 de idade considero bastante razoável este período. Foram dez anos em escolas do Estado de São Paulo - do primário ao colegial -, nove anos em universidades paranaenses - onde cursei Jornalismo e Sociologia -, e 11 anos na Universidade Estadual de Londrina (UEL), como professor do curso de Comunicação, habilitação em Jornalismo.
Filho de família humilde - cujos pais cresceram na roça e não foram além do 1º grau -, tenho dois irmãos mais velhos que infelizmente não conseguiram completar os cursos de caras faculdades particulares nas quais entraram. A revista ‘‘Veja’’ publicou recentemente uma completa reportagem sobre a evasão de professores das universidades públicas para as escolas privadas de ensino superior. Eles vão em busca de maiores salários e melhores condições de trabalho, após décadas de capacitação financiada por recursos públicos e de dedicação à formação dos pesquisadores e profissionais brasileiros.
Com o sucateamento dos laboratórios, achatamento salarial e más condições de trabalho, os governos federal e estaduais jogaram pesado, nos últimos anos, no desmantelamento do ensino superior público, gratuito e de qualidade. Para isto, usaram o falso discurso de que se gasta muito com as universidades e pouco com o ensino básico; e que seria necessário inverter esta situação.
Na verdade, procuram ‘‘lavar as mãos’’, diminuindo os investimentos, piorando a qualidade do ensino, da pesquisa e extensão das escolas públicas e pressionando os professores a abandoná-las em busca de sobrevivência. Ao mesmo tempo, abre-se a lucrativa possibilidade para o avanço do ensino superior pago, muitas vezes não compromissado com os verdadeiros interesses do País e da maioria da população brasileira.
O Brasil necessita cada vez mais aumentar a porcentagem da população com formação superior, se pretende vencer a competição com os países vizinhos na busca pela industrialização, estabilidade econômica, paz social e melhor qualidade de vida para a população. Neste sentido, o crescimento das escolas particulares é importante e também imprescindível. Mas não se pode, em hipótese alguma, diminuir os investimentos federais e estaduais na rede de ensino público de 3º grau e nos cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado).
Não é tirando recursos e levando à falência o ensino superior que melhoraremos o nível das escolas públicas de 1º e 2º graus. Até porque é no 3º grau que se formam os futuros professores do ensino básico. O caminho é investir pesado nos três níveis do ensino público. As escolas privadas continuarão crescendo e ocupando um outro importante espaço, para ajudar o País com a formação de profissionais oriundos de famílias que têm condições financeiras de pagar mensalidades.
É importante que mais pessoas escrevam, discutam e reflitam sobre os rumos do ensino público no Brasil. O momento é preocupante e decisivo. Fica aqui esta pequena contribuição de alguém que - exceção às questões emotivas e familiares - deve quase tudo que tem na vida aos 30 anos que passou dentro das escolas públicas paulistas e paranaenses. Seria muito bom se meus dois irmãos e outros milhões de brasileiros pudessem ter tido esta feliz oportunidade. Eles poderiam ter colaborado mais para a construção de um País menos subdesenvolvido e menos injusto.
OSMANI COSTA é jornalista, sociólogo, professor da UEL e repórter desta Folha.

mockup