Escola no Brasil ensina pouco
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segunda-feira, 23 de abril de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Uma escola que não ensina a ler, a escrever e a fazer contas, é um ''criatório de deliquência e violência''. A opinião é do educador Cláudio Moura e Castro - articulista da revista Veja e consultor aposentado do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) -, que participou semana passada do ''Fórum Desenvolve Londrina''. A seguir, as principais declarações do educador à FOLHA.
Como é a educação no Brasil em comparação com o resto do mundo?
Há 30 anos, a matrícula e frequência ficavam abaixo da Bolívia, do Paraguai e do Equador. De lá para cá, está se aproximando, também em qualidade, da Argentina, Uruguai e Chile, que são os melhores sistemas latino-americanos. Agora, acontece que, no mundo, a educação latino-americana é muito ruim. O Brasil tem uma educação que corresponde ao nível de um país muito mais pobre. Temos 200 países, dos quais 150 piores que o Brasil em educação. Mas isso não é vantagem porque não estamos competindo com eles, mas com os 50 que estão para ''riba''. Esse é o drama.
Como o ensino deficiente prejudica?
A sociedade moderna baseia-se na palavra escrita, as pessoas precisam ler instruções sobre como proceder, usar números.®MDBO¯®MDNM¯ Nas fábricas, têm que entender a estatística do controle de qualidade. Então, grande parte dos nossos problemas envolve buscar e analisar informações. Para uma pessoa pouco educada, o Google (site de busca) faz até mal,
diante da tantas informações e dados. Tudo milita para uma produtividade ruim quando a educação é fraca.
É a pior exclusão, a educacional?
Sim, é a origem de todas. Hoje, faltam oportunidades educacionais para compensar a diferença sócio-econômica inicial dos alunos. Uma criança de classe baixa nos EUA - não temos estatísticas disso no Brasil - conhece, no primeiro dia de aula do ensino fundamental, mais ou menos 400 palavras. Uma criança de classe média ou alta, conhece entre 3 mil e 4 mil palavras. A gente pensa com palavras. Então, a capacidade de pensar de uma criança de classe baixa, comparada com uma de classe alta, é algo que se diferencia pela proporção existente entre 400 e 3 mil.
E a escola particular no Brasil, por que não consegue atingir níveis mais eficientes?
A particular tem os mesmos problemas da pública, ou seja, professores tentando ensinar de maneira errada. O que o Pisa (teste internacional de avaliação de escolas) mostra é que os filhos das elites brasileiras entendem menos o que está escrito no papel do que os filhos dos operários na Europa. Agora, obviamente a particular é muito melhor que a pública porque os alunos vem de classe social mais alta e a escola é mais bem gerenciada.
De quem cobrar responsabilidade pelo crescimento da violência nas escolas?
Não se pode dizer que é isso ou aquilo: trata-se de uma síndrome, um conjunto de fatores. Agora, uma coisa a gente sabe: a escola que não ensina vai ter problemas. Se a escola não consegue ensinar a ler, a escrever, a contar, a resolver problemas, então ela é um criatório de deliquência e de violência, porque está frustrando o aluno na sua função mais essencial. A primeira coisa, então, é fazer com que a escola ensine. Depois, vamos cuidar dos meninos, fazer exercício, tem mil coisas que podem ser feitas, mas sem que a escola ensine, não adianta tapear.
Muitos especialistas alegam que a perda de valores familiares também ajuda a gerar violência...
Isso é verdade, mas o que se vai fazer? A única coisa em que podemos mexer é na escola. A família você não consegue alterar a curto prazo. A escola recebe um ônus muito grande com isso, e, neste contexto, é importante focalizar o ensino em tempo integral.


