Correram os amigos a me contar que os ‘‘poderosos’’ das escolas legais de Londrina estavam bravos em função de eu ter tido a coragem de dizer o que faltava e publicar nesse jornal na semana passada. Achei lamentável eles não terem gostado do artigo e simplesmente fecharem a cara, pois a intenção era que algo fosse feito em relação a tão precioso tema que é a educação de nossos filhos.
Como lembra Foucault (1980), ‘‘cada sociedade tem seu regime de verdade, sua política geral de verdade: isto é, os tipos de discursos que aceita e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e instâncias que permitem distinguir entre sentenças verdadeiras e falsas, os meios pelos quais cada um deles é sancionado; as técnicas e procedimentos valorizados na aquisição da verdade; o status daqueles que estão encarregados de dizer o que conta como verdadeiro’’. (Foucault, 1980, página 131, apud Gore, 1995, página 10).
As escolas legais de nossa cidade precisam abandonar o descaminho que tomaram há alguns anos e retornar ao que interessa a sociedade, que vem a ser uma formação múltipla do cidadão, preparando-o para o mundo competitivo que já está a bater em nossas portas. É necessário que se inicie o processo discutindo claramente a questão moral que envolve o tema, pois ao ver deste professor e da própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a moralidade da escola começa por não se permitir a quantidade de alunos que os donos de escola estão colocando aos cuidados de cada professor em uma única sala de aula.
O artigo 36 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação preconiza em seu parágrafo 3º que o estudante, ao final do ensino médio, deverá demonstrar domínio dos conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania e, me parece, ainda que reconhecendo não ser um ‘‘expert’’ no assunto, que nossas escolas – ditas legais – não têm se preocupado muito com isso, gerando mais um descaminho no papel fundamental a que se propõe a escola brasileira. Qual colégio legal aqui em nossa cidade já incluiu essas disciplinas em seus currículos?
Ainda citando a referida lei, para aqueles que não gostam do que recentemente escrevi sobre a educação em Londrina, peço que vejam o artigo 3º, no qual os princípios da educação devem ser o da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber e a valorização do profissional da educação escolar que, espero, pelo menos essa última, esteja na mente de todos que participarem da próxima negociação sindical que ocorrerá nos próximos dias.
Em todo o mundo desenvolvido a educação deixou de ser uma atividade improvisada. Lamentavelmente, e por culpa das próprias escolas que não investem na formação de seu corpo docente com salários mais justos e condições mínimas de subsistência, não acontece assim no Brasil em nível de escola particular, pois os professores, na maioria dos casos, sequer possuem acesso a planos de saúde em função dos baixos salários, o que acaba por debilitar todo o processo. Essas necessidades básicas do professor que as escolas fingem não ver, atingem principalmente aos professores de 1º e 2º graus, os níveis mais críticos de nosso ensino. Componente importante dessa problemática é o círculo vicioso do professor que não se atualiza por injunções socioeconômicas e é julgado não merecedor de condições melhores por não se atualizar.
Mesmo que a próxima negociação sindical seja um marco do reconhecimento desses problemas e todos tenham em mente a necessidade de aperfeiçoamento do profissional da educação é preciso deixar claro que isso não será o suficiente para a elevação de qualidade da educação em geral. Outras carências avultam, tais como: usar metodologias modernas, oferecer conteúdos mais avançados etc. Acrescente-se melhor utilização do material didático, ambiente escolar, criar ou ampliar oportunidades culturais complementares tais como: certames, exposições, lazer educativo etc.
Espero que a classe patronal comece a pensar com tanta dedicação quanto a que utilizou para falar na escola legal, nas necessidades de melhorar as condições para seu corpo docente em detrimento de entrar no descaminho que acompanhamos pelos jornais.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas, professor, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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