Escola e cidadania - Haroldo Marçal
Escola e cidadania
Haroldo Marçal
A situação que se configura em razão das crescentes e aceleradas transformações por que passa a sociedade tem contribuído para o desenvolvimento do individualismo, da intolerância, da violência e de outros valores e sentimentos negativos na formação dos indivíduos. Esse contexto coloca enormes desafios para a sociedade e, como não poderia deixar de ser, também para a escola.
Precisamos construir uma nova escola, associada à realidade do mundo e da vida, capaz de produzir seres completos, capazes de pensar, construir e reconstruir conhecimentos, capazes de se adaptar a uma nova cultura do trabalho. Uma escola onde a intuição, as emoções e os sentimentos integrem o processo de construção do conhecimento, que veja em cada aluno um indivíduo dotado de uma dimensão social, que necessita educar-se ao longo da vida dentro do espaço individual e coletivo. Uma escola que olhe cada aluno como um sujeito original, singular, diferente e único, dotado de inteligências múltiplas, com diferentes estilos de aprendizagem e de resolver problemas. Uma escola comprometida com o desenvolvimento, pelo aluno, da sua capacidade de aprender, o que se manifesta pela capacidade de refletir, analisar e tomar consciência do que sabe, dispor-se a mudar os próprios conceitos, buscar informações.
Um ponto importante a destacar, segundo Gardner em seu Livro Inteligências Múltiplas, seria a necessidade da cultura geral. A cultura geral se faz necessária para servir de base à educação profissional não somente pelos conhecimentos que oferece, mas também pelas qualidades intelectuais que desenvolve. Ao mesmo tempo, a formação profissional constitui, como elemento da personalidade humana integral, como elemento da própria cultura, fator educativo, fator de socialização do indivíduo, modo de afirmação e aperfeiçoamento do homem.
O crescimento educacional tem sido muito rápido e será maior nos próximos anos com a virada do milênio. A máquina, a técnica, a organização exigem uma formação quase especializada, com recursos humanos capazes de capitalizar o progresso técnico-científico em favor do homem e da sociedade. Este rápido crescimento deve-se à expansão do uso de computadores que ocupam um crescimento de 30% ao ano. De acordo com o psicólogo americano Daniel Goleman, o computador é uma máquina e quem o faz trabalhar para o bem ou mal é a mão inteligente do homem que o opera.
Numa sociedade historicamente marcada por relações hierarquizadas e por privilégios que reproduzem um alto nível de desigualdade, injustiça e exclusão social, a prática pedagógica tem compromisso com a construção da cidadania e assim deverá estar voltada para a compreensão da realidade social e dos direitos e responsabilidades individuais e coletivos. A escola comprometida com a cidadania não se constitui apenas num espaço de reprodução, mas num espaço de transformação das relações sociais. Suas ações têm compromisso com o desenvolvimento de valores e atitudes que favoreçam a autonomia, a cooperação e a participação social, princípios fundamentais para a formação do indivíduo-cidadão. O compromisso da educação está no desenvolvimento das capacidades que permitam, aos indivíduos, posicionar-se diante das questões que interferem na vida coletiva, na superação da indiferença, na intervenção responsável na realidade e no desenvolvimento de um trabalho que possibilita a participação social.
A Comissão das Comunidades Européias (Bruxelas, 1995) sinaliza que a missão fundamental da educação consiste em ajudar cada indivíduo a desenvolver todo o seu potencial e a tornar-se um ser humano completo, e não um mero instrumento da economia; a aquisição de conhecimentos e competências deve ser acompanhada pela educação do caráter, a abertura cultural, e o despertar da realidade social. A Unesco segue esta mesma orientação quando propõe no relatório da Reunião Internacional sobre Educação para o Século XXI, que para atender às necessidades de aprendizagem do cidadão do próximo milênio, a educação deve responder por quatro grandes necessidades: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser, e insiste que nenhuma delas deve ser negligenciada.
Esses desafios colocados à escola exigem o trabalho de um professor qualificado e capacitado para atender às necessidades de aprendizagem do cidadão da chamada era do conhecimento. Aprender a agir e a pensar a partir de um novo referencial teórico não é tarefa fácil. Exige esforço e disponibilidade do professor e ações práticas e efetivas por parte do Estado, para garantir que a mudança ocorra de forma serena e se revista das condições necessárias para conduzir com eficiência e eficácia a educação que a sociedade exige da escola.
Para desenvolver sua prática, o professor precisa também desenvolver-se como profissional e como sujeito crítico dentro da realidade, precisa situar-se como educador e como cidadão participante do processo de construção da cidadania, de reconhecimento de seus direitos e deveres de valorização profissional.
O professor atua numa realidade complexa, mutável e muitas vezes conflituosa, depara frequentemente com situações problemáticas singulares que exigem soluções particulares, e, seu êxito profissional vai depender da sua capacidade de tratar com a complexidade da ação educativa e da sua capacidade de resolver problemas. Sua ação exige profissionalismo, compreensão das questões do trabalho, competência para identificá-las e resolvê-las, autonomia para decidir e responsabilidade pelas opções feitas.
A ação educacional, por ser contextualizada, é sempre passível de transformações e requer, muitas vezes, que o professor reconsidere seus valores, crenças, hábitos e formas de se relacionar com a profissão. A ação educacional requer, portanto: do professor disponibilidade para a aprendizagem permanente; da instituição formadora desse profissional que o ensine a aprender; e do sistema escolar no qual se insere como profissional condições para continuar aprendendo. Ser profissional implica a condições de ser um eterno aprendiz.
- HAROLDO MARÇAL é professor universitário e presidente do Conselho Estadual de Educação do Paraná





