O acervo do Museu David Carneiro, em Curitiba, é propriedade particular. Pertence aos herdeiros do historiador David Antonio da Silva Carneiro, seu fundador. Pode ser mantido, dividido, vendido, doado, leiloado, desde que respeitada a vontade da família e a lei de tombamento, que impõe não separar peças de mesma categoria (exemplos: armas, pinacoteca, uniformes). É preciso esclarecer, portanto, que o tombamento do Museu David Carneiro se deu em 1940, por iniciativa do próprio historiador.
Muito se tem especulado acerca do acervo e do imóvel que o abrigou durante várias décadas. Tal imóvel, entre as ruas Menna Barreto Monclaro, Brigadeiro Franco e Comendador Araújo, não pertence mais à família. Foi dado em pagamento de uma dívida junto ao Banco do Brasil, que ainda não tomou posse devido a uma ação de usucapião impetrada pelo Centro Positivista do Paraná, que se reúne no local há mais de 70 anos. Há poucos dias, o BB leiloou o imóvel, que foi arrematado por um consórcio de cinco empresas.
À família Carneiro, manter esse acervo é dificultoso devido ao alto gasto que demanda. Meu avô, David Carneiro, sempre fez isso sozinho, nunca recebeu incentivo dos governos municipal, estadual ou federal. Era ele quem comprava as peças, pesquisava, mandava fazer vitrines, limpava, lubrificava, pagava contas de água, luz, telefone, faxineira etc. Era ele, também, que durante muitos anos acompanhou os visitantes pelas salas, contando a História do Paraná.
Desde a morte do historiador, várias tentativas foram feitas junto à Prefeitura de Curitiba, governo do Estado, Assembléia Legislativa para que se desse um destino digno às peças do museu. Meu avô morreu em 1990. Em 1996, como no Paraná nenhuma negociação tinha evoluído, foi organizado um leilão com profissionais de São Paulo, que selecionaram várias peças de interesse mundial. Vieram ao Brasil colecionadores da América do Sul, Estados Unidos e Europa, atraídos pela raridade da coleção de David Carneiro.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional entrou com uma cautelar e obteve uma liminar embargando o leilão por não terem sido descritas as peças tombadas. O leilão não se deu e as peças retornaram a Curitiba, onde estão armazenadas na sede regional do Iphan, tendo como fiel depositário o diretor regional José La Pastina. O resultado desse embargo impossibilitou que pessoas ou instituições com absoluto interesse e condições de preservar as peças pudessem adquiri-las. Todo esse valioso material histórico permanecerá embalado, não se sabe por quanto tempo. Surpresa maior poderemos ter ao abrir, um dia, essas caixas.
Sobre as peças, que estão no Iphan, foi aprovado um projeto federal da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, mas ainda não houve a captação dos recursos. As peças que não fizeram parte desse leilão continuam no prédio do museu. Nada foi desmantelado e muito menos abandonado.
A Comissão de Patrimônio da Secretaria de Estado da Cultura, em recente reunião, sugeriu que as peças fossem catalogadas, embaladas e depositadas em local seguro sob guarda estadual até que seu destino seja definido. Este trabalho deve começar nos próximos dias, acompanhado de perto por um representante da família. Surpreende-nos mais ainda o fato de o Paraná, com governantes cultos, viajados, conhecedores dos melhores museus do mundo, encontrar como única solução para peças tão representativas da nossa história embalá-las e confiná-las a salas fortemente trancadas.
Todas as vezes que algum dos herdeiros é inquirido, responde que, por conhecer a importância desse acervo, gostaria que tudo permanecesse no Paraná. Às futuras gerações de paranaenses, o direito de conhecer melhor nossa história não deveria ser negado. Desde que meu pai, David Carneiro Jr., morreu em outubro do ano passado, não fomos procurados por nenhum representante governamental.
Apenas o diretor do Iphan se mostrou interessado em resolver o problema e procurou auxílio junto à Secretaria de Estado da Cultura. Desta forma, o que for decidido pela família será feito: venda pulverizada do que não estiver tombado, leilão ou novo projeto de lei de incentivo à cultura. Alguns herdam carros, propriedades, fábricas. Nós recebemos um museu e temos muito orgulho disso, uma vez que se trata da História do Paraná.
- ELISA MARILIA PRADO CARNEIRO é jornalista da Folha em Curitiba

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