ESCASSEZ DE ALIMENTOS - Reforma agrária é a saída para conter crise?
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 2008
Karla Losse Mendes<br>Equipe da Folha 
Olhar firme, fala suave, voz baixa e respostas diretas. Bem agasalhado para se proteger do frio curitibano, Plínio de Arruda Sampaio, 79 anos, esteve na Capital esta semana para participar da abertura do 2º Encontro Terra e Cidadania. Presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), duas vezes deputado e militante da questão da terra há mais de 50 anos, Sampaio falou com exclusividade à FOLHA sobre os rumos da reforma agrária no País.
Autor do estatuto do PT durante a fundação do partido, no início dos anos 80, ele revela que a decepção pela proposta de reforma agrária não ter sido colocada em prática pelo atual governo foi um dos motivos que o fez desligar-se do PT e mudar para o Psol. Nós propusemos uma reforma de 1 milhão de famílias em quatro anos, objetivo que foi cortado pela metade. Grande parte foi uma mera titulação de terra, e isto não é reforma agrária, esbraveja.
Como a questão agrária evoluiu nas últimas décadas no Brasil? Tem progredido?
A reforma agrária foi paralisada. Quer dizer, não há um movimento para modificar a estrutura da propriedade da terra. A reforma agrária é uma modificação estrutural, muito diferente de um programa de assentamentos. É uma intervenção do Estado para democratizar a propriedade da terra de maneira significativa. Isso não aconteceu no governo Fernando Henrique e não acontece no governo Lula.
O governo Lula foi muito esperado pelo Movimento Sem-Terra, havia uma grande expectativa de que este governo promoveria a reforma agrária...
Isso não aconteceu. Eu fico muito à vontade para dizer isso porque eu preparei o plano. Nós propusemos uma reforma de 1 milhão de famílias em quatro anos, objetivo que foi cortado pela metade. Ficaram 400 mil e nem essas foram atendidas. Pior, grande parte foi uma mera titulação de terra e isto não é reforma agrária. Reforma é dar terra a quem não tem. Foi uma decepção muito grande. Uma decepção forte, tanto que eu, que era um membro do PT, deixei o partido. Uma das razões foi essa. Não a única, mas uma das razões.
O senhor diria que essa foi sua maior decepção com o PT?
Eu diria que foi uma decepção tão grande quanto as outras. Quanto ao fato de que o PT deixou de ser um partido socialista. Ele se propôs inicialmente a ajudar a construir o socialismo no Brasil e deixou esse objetivo.
No Paraná, temos casos de proprietários de terras contratando seguranças armados e confrontos durante invasões. Na sua percepção, a estratégia do MST é correta ou existe alguma outra forma de luta que não seja a ocupação?
Eu não vejo outra saída que seja suficientemente eficaz. Eles tentam tudo: fazem marchas, dias de romaria, ocupam prédios públicos e não conseguem absolutamente nada. Então tem que ocupar. Não tem outro jeito. Agora, esta criminalização é insensata porque isso só pode dar como resultado um expontaneísmo de revolta muito perigoso.
Tem sido muito discutida a produção de biocombustíveis e a crise mundial de alimentos. A reforma agrária e a valorização da pequena propriedade seria algumas das soluções para esta crise?
Evidente. A cana e essa produção está ocupando o lugar de outras culturas. Então uma reforma agrária se torna cada vez mais necessária. Todo mundo sabe que a primeira coisa que um assentado faz é plantar para comer e o excedente ele vende. Se você quer abundância de alimentos, tem que fazer uma agricultura de pequenos agricultores.
Nessa discussão entra também o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Existe uma maneira de explorar de forma sustentável esse território?
Nós desconhecemos a Amazônia. Na verdade, a humanidade desconhece a Amazônia. Nossos conhecimentos sobre a natureza são muito limitados em relação ao potencial daquela região, que é sobretudo um potencial de biodiversidade enorme no meio de uma terra fraca e um meio ambiente delicado. O que tem que se fazer lá é um território federal, organizado pela União para investigação, para pesquisa. O absurdo é meter boi lá dentro.
O senhor se filiou ao Psol depois de deixar o PT. Quais são as propostas do seu partido para a questão agrária?
O Psol tem uma proposta socialista. A experiência do socialismo no campo não foi boa, nós temos que revisar tudo isto. Mas a nossa fórmula não é para a produção de commodities, é para a produção de alimentos para toda a população. O Psol está começando agora, mas sua construção ideológica vem de muitos anos. O partido não tem pressa. Nós não queremos ganhar a eleição ano que vem, queremos montar uma proposta para o País.
Qual a expectativa para os próximos governos?
O que vem depois do Lula? Olha, só como dizia o Luis XVI: depois de mim, o dilúvio.


