Escapismo Delfim Neto
Uma das características mais interessantes do atual governo da República é a sua capacidade de atribuir a outrem (pessoas ou entidades) a responsabilidade pelos problemas não resolvidos. Assistimos, não faz muito tempo, a uma dessas demonstrações explícitas de escapismo quando o Sr. Presidente dirigiu-se a uma platéia de empresários em Brasília. Eles viajaram à capital com a intenção de reclamar dos altos juros, das restrições de crédito e das importações favorecidas pela defasagem cambial e pela desproteção tarifária. Com uma retórica admirável que arrancou vibrantes aplausos dos empresários, S. Exª convenceu-os da existência de um ente fantasmagórico em Brasília, que ele chamava de aquele governo e que era o responsável pelos problemas enfrentados pelas empresas nacionais!
Na semana que passou, quando os repórteres pediram um comentário sobre as greves de policiais que deixaram ainda mais desprotegidos os cidadãos das grandes cidades brasileiras, S. Exª escapou-se com esta: Isso não é comigo; é problema dos Estados e do ministério da Fazenda...
É possível que a Fazenda a que o Sr. Presidente se referiu seja um ministério daquele governo, não do seu. Ninguém pode ignorar, porém, que a situação financeira dos Estados tornou-se caótica por conta das elevadas taxas de juros impostas pela política monetária do governo central. Algumas províncias-problema, como é o caso de Alagoas, estão em processo de falência há várias administrações, com suas folhas de pagamento infladas e por conta de escandalosos acordos de isenção fiscal. Essas complicações, no entanto, são extraordinariamente ampliadas com a velocidade de crescimento da dívida pública em decorrência das altas taxas de juros. O efeito devastador dos juros pode ser melhor observado em relação ao Estado de São Paulo. Apesar da redução de despesas empreendidas pelo governo Covas, com a dispensa de quase 120 mil servidores, a expansão da dívida pública produzida pelas altas taxas de juros praticamente zerou a capacidade de investimentos do Estado de São Paulo, obrigado a comprometer 11% de sua receita no recente acordo de rolagem firmado com o governo federal.
Os efeitos perversos da política de juros não desarrumam apenas as finanças dos estados e municípios. Eles atingem duramente as pequenas e médias empresas industriais e desestruturam a atividade agrícola, produzindo o desemprego que está na raiz do aumento das tensões sociais nas cidades e no campo. É difícil imaginar que não exista, naquele governo em Brasília, um observador capaz de perceber que o tempo do escapismo se esgotou. É tempo de rever a política de câmbio, baixar as taxas de juros e desarmar a armadilha que impede o crescimento da economia, única resposta razoável que permitira melhorar os níveis de emprego e reduzir a exacerbações das tensões sociais.
- ANTONIO DELFIM NETTO é Deputado Federal





