ESCÂNDALO NO CLERO 'Igreja Católica nunca foi omissa'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Em 1996, o então cardeal Joseph Ratzinger, que desde 2005 é o papa Bento 16, não teria tomado nenhuma atitude diante de acusações de pedofilia envolvendo um padre nos Estados Unidos. O assunto gerou polêmica desde que começou a vir à tona uma série de denúncias de abuso sexual infantil envolvendo membros da Igreja Católica. Somente o padre Lawrence Murphy, que morreu em 1998, é suspeito de ter abusado de até 200 meninos em uma escola para surdos entre 1950 e 1974.
Um relatório encomendado pela Igreja em 2004 concluiu que mais de 4 mil padres americanos enfrentaram acusações de abuso sexual nos últimos 50 anos, em casos envolvendo mais de 10 mil crianças - principalmente meninos.
Diante das denúncias, a Igreja Católica vem sendo criticada por não se posicionar de maneira enfática acerca dos escândalos. O papa Bento 16 disse na semana passada que ''a Igreja deve se penitenciar pelos seus pecados''. Para aumentar a discussão, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, relacionou a pedofilia ao homossexualismo.
No Brasil, o monsenhor Luiz Marques Barbosa, 82 anos, investigado pela polícia por suposto abuso sexual de adolescentes, foi preso ontem em Arapiraca, em Alagoas, por determinação da Justiça.
Reitor do Seminário Paulo VI, Padre Rafael Solano Durán, que é doutor em Teologia Moral e especialista em Bioética, acredita que o método que está sendo utilizado pelas pessoas que acusam a Igreja não é humano. ''A denúncia deve ser feita às autoridades competentes para que tomem as devidas providências'', cobrou. Nesta entrevista, ele ressalta que pedofilia é uma doença e ressalta: ''Não podemos sair condenando o clero e dizendo que todos estão envolvidos, mas também não vamos aplaudir os padres que estão fazendo isso.''
Como o senhor avalia as denúncias de pedofilia que envolvem a Igreja Católica?
O Evangelho tem uma expressão belíssima: escândalos são inevitáveis, mas ai daquele que os causa. Na vida humana há diversos tipos de escândalos e a pedofilia são situações muito delicadas. Quando se coloca na opinião pública uma realidade tão cruel como a pedofilia, nós cristãos devemos ter muita humildade, serenidade e coragem. A gente não pode perder a coragem de anunciar nem de se abrir para ouvir o que o mundo quer dizer seja contra ou a favor de nós. O papa Bento 16 disse que nessa circunstância a Igreja deve se penitenciar.
Mas se penitenciar não é pouco diante do sofrimento causado às vítimas e aos seus familiares?
A penitência bem entendida é mais difícil do que se pensa. Quem faz penitência de verdade sofre muito mais do que podemos imaginar. Penitenciar-se significa reconhecer humildemente o pecado e estabelecer um propósito de reparação. O que me parece é que o método que está sendo utilizado pelas pessoas que acusam a Igreja e ao clero não é o método humano. Aliás, muitas dessas pessoas querem somente indenizações econômicas.
E qual deveria ser o método utilizado pelas pessoas diante das atuais circunstâncias?
Quando uma família sofre abuso sexual, seja de um presbítero ou de outra pessoa, está na obrigação moral de denunciar. Mas a denúncia deve ser feita a uma autoridade competente para que tome as devidas providências. Eu não estou dizendo que a pessoa deve ficar calada. Isso seria conivente e a situação é muito delicada e séria. Mas é preciso desenvolver um processo diferente.
A Igreja não deveria se posicionar de maneira mais severa?
Existe um procedimento canônico que a Igreja segue. Uma vez constatado o problema, imediatamente o bispo inicia um processo na congregação e paralelamente abre-se um processo judicial. A grande restauração é o desejo que temos de nos converter. A Igreja não tem medo de enfrentar esse martírio. Não podemos sair condenando o clero e dizendo que todos estão envolvidos, mas não vamos aplaudir os padres que estão fazendo isso.
Existe há mais de 14 anos uma comissão específica para tratar esses delitos. Em todas as dioceses estão sendo tomadas medidas. Pode ser que a mídia pegue um único caso e faça um grande barulho. Mas a Igreja nunca foi omissa. Por que agora aparece um caso atrás do outro? Alguns realmente sofreram essa situação, mas muitos estão olhando para nós como se todos estivéssemos no mesmo grupo.
Alguns pensam que a Igreja está dizendo que não há padre pedófilo. Mas nós dizemos que há. O processo que o mundo está seguindo não é sadio. Hoje quando se fala de pedofilia a única situação que se apresenta é o clero.
As denúncias podem denegrir a imagem da Igreja a ponto de afastar fiéis?
Claro. Há pessoas que se sentem destruídas e não sabem como reagir diante do que está acontecendo. E o que é pior é que fica um ar de desconfiança. O problema é a ferida que fica.
Pedofilia é doença? Sendo assim, a Igreja não deveria encaminhar os padres envolvidos para tratamento?
É uma séria patologia, uma das mais graves. Se no seminário a gente constatar um pedófilo, nós devemos afastar essa pessoa imediatamente e propor um processo de recuperação.
O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, afirmou que pedofilia e homossexualidade estão relacionadas. Como o senhor avalia essa colocação?
A Igreja sempre teve uma atenção muito especial com os homossexuais. Nós fomos a primeira instituição a chamá-los de pessoas homossexuais. O cardeal Bertone respondeu a pergunta de uma jornalista dizendo que não são somente os clérigos que são pedófilos e que a pedofilia está intimamente ligada a uma desordem. Parece-me que perguntaram a ele se pedofilia e homossexualismo tinham alguma relação e o cardeal afirmou que dentro da pedofilia e do homossexualismo há comportamentos que na moral cristã são vistos como desordens.
Então a Igreja considera a pedofilia e o homossexualismo desordens do mesmo nível?
Alguns estão dizendo que o cardeal Bertone afirmou que pedofilia e homossexualismo são a mesma coisa. O que o cardeal está dizendo é que as duas são desordens morais muito fortes. E a proposta de salvação e renovação é para que homossexuais e pedófilos encontrem em Cristo um caminho que é a conversão. Tanto a pedofilia quanto o homossexualismo são desordens contra a natureza.
E o senhor acredita que há relação entre o celibato e a pedofilia?
O celibato é uma proposta do reino de Cristo. Uns são chamados para a vida conjugal e outros para a vida sacerdotal. Os chamados para o sacerdócio vivem a serviço do mundo entregando sua própria sexualidade. Não há nenhuma relação entre pedofilia e celibato. Há pedófilos em todos os segmentos da sociedade.
Pedofilia e homossexualismo são desordens morais muito fortes
Denúncia deve ser feita a autoridade competente para que tome providências


