ESCÂNDALO NA CÂMARA - 'Vereador não deveria receber salário'
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terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
A denúncia criminal contra cinco vereadores londrinenses por suspeita de cobrança de propina para aprovar projetos de Lei causa arrepios nos políticos da moda antiga. O ex-presidente da União Londrinense dos Estudantes (ULE), ex-vereador e ex-vice-prefeito pela União Democrática Nacional (UDN), João Tavares de Lima, 82 anos, defende que os edis sequer recebam salários. Na época em que participou da política local, o advogado e contabilista disse que não havia nem murmúrio sobre corrupção.
Nesta entrevista à FOLHA, o veterano vereador da década de 50 comenta a política atual:
A que o senhor atribui os problemas atuais da política brasileira - a exemplo do escândalo que está ocorrendo na Câmara de Londrina?Para mim é o nível da política. Por exemplo, em 1964, houve uma tentativa de moralizar as câmaras de vereadores obrigando que o mandato fosse gratuito em cidades com menos de 2 milhões de habitantes. Acho que vereador não deve ganhar um centavo porque é uma honra para ele representar a coletividade. Ele mora na cidade, tem sua atividade e no dia em que for trabalhar para a Câmara é um dever de cidadão. Eu, por exemplo, cheguei a Londrina como folguista de automóvel, derrubava mato, e o que tenho na vida, devo tudo a essa cidade. Então, devo pagar o que recebi.
Havia salário de vereador quando o senhor participou da Câmara?
Tinha uma ajuda de custo, de 200 cruzeiros, que não significava nada. Essa questão de verba pública é um negócio muito sério. Tinha um político em São Paulo que não queria receber os subsídios, então, quando terminou o mandato ele foi chamado na prefeitura porque o salário ficava em restos a pagar na contabilidade. Daí ele deu uma procuração para uma instituição de caridade para ir lá e receber. Eu, como era muito ligado ao Nelson Foratini, do lar Anália Franco, também doava tudo para a entidade. Tinha minha profissão e vivia dela, não precisava do dinheiro para isso.
Como era a estrutura da Câmara na década de 50?
Éramos 21 vereadores, mas não havia assessores. Os pareceres eram feitos pelos próprios presidentes das respectivas comissões, a maioria advogados como (os ex-prefeitos) Milton Ribeiro de Menezes e Hosken de Novaes. A Câmara funcionava com cinco servidores apenas: a secretária, que auxiliava nas sessões às segundas e quintas-feiras à noite; o chefe da secretaria; o contador; e mais dois funcionários que eram auxiliares - levavam cafezinho, datilografavam os pareceres, ajudavam em tudo que precisasse. E funcionava perfeitamente. Uma vez, quando eu era presidente, um vereador, meu amigo, falou: João, vamos comprar um automóvel para a Câmara? Falei, não senhor, não devemos gastar dinheiro público em coisas supérfluas. Lembro-me também que a Câmara tinha um desnível social semelhante à composição da própria sociedade. Existia um grupo de vereadores que não tinha instrução. Mas eram homens sérios também, seríssimos!
E o salário de prefeito?
Era pequeno também. Deixa eu contar uma história para você entender. O Hosken de Novaes, antes de ser prefeito, foi indicado como candidato várias vezes e não aceitou. Até que um dia ele disse; agora aceito porque estruturei a minha vida para viver quatro anos sem trabalhar. Ele sabia quanto ia ganhar e se preparou para manter sua vida naqueles quatro anos. Na UDN, que era tido como um partido reacionário, mas muito sério, era difícil indicar um candidato. O José Bonifácio (e Silva), por exemplo, foi candidato no sacrifício, ele aceitou a indicação porque ninguém queria ser candidato aquele ano. Eu mesmo, quando o Hosken cogitou meu nome, falei: nem pensar, o que ganhava um prefeito não dava para viver, criar e educar os filhos. Não admiti nem ser candidato. Porque ser candidato não é nada, o perigoso é ser eleito (risos). Como é que eu ia viver? Quando o Hosken ganhou, um colega nosso apresentou um projeto de resolução para aumentar o salário do prefeito de 400 para 1.000 cruzeiros. O Hosken disse, não senhor, não quero porque quando aceitei o cargo já sabia quanto ia ganhar. Você vê o padrão dos homens! Sobre propina, desonestidade, não havia nem murmúrios.
Qual foi o ponto de mudança de uma política mais honesta e saudosa para o que ocorre hoje?
Acho que foi a passagem para a política profissional. Sem acusar ninguém, a última administração séria em Londrina foi a do Hosken de Novaes. Depois dele, só tivemos um prefeito digno de ser lembrado no interesse público que é o Wilson Moreira. O resto são políticos profissionais, daí começou o sistema de corrupção. No Brasil, quem introduziu o ''por fora'' foi o Adhemar de Barros (ex-governador de São Paulo), que tinha o ''rouba mas faz''. Só que tudo piorou: naquela época, o máximo era 2%, e hoje se diz que o mínimo é 10%!


