A escalada de violência que ocorre em todo o mundo provoca diferentes tipos de reação, mais ou menos ligadas à distância. Tomamos conhecimento, com alguma sentimento de indignação, do massacre dos refugiados no Zaire, mostramo-nos chocados com o falado genocídio cometido ao longo da guerra na Bósnia, também nos impressionamos com as imagens dos atos terroristas pela Irlanda ou no Oriente Médio. Mas tudo isto é distante, mostrado pela TV e chega a se confundir com certas imagens até piores vistas nos chamados filmes de ação, que ocupam os melhores horários da telinha ou as mais disputadas salas de espetáculos por toda parte. Em realidade, esta confusão de imagens acabou por anestesiar as pessoas, sendo que muitas sequer conseguem distinguir o que é real do que é apenas ficção.
Já a violência mais próxims, as chacinas de pessoas no Rio, em São Paulo, as rebeliões em penitenciárias brasileiras, isto provoca reação maior, mas, mesmo assim, algo aleatória. São coisas que, a gente pensa, acontecem lá longe, com outras pessoas, vivenciando outras realidades.
E talvez porque vamos ficando anestesiados diante de tantas imagens ou de tantos fatos de que tomamos conhecimento, mas que dizem respeito a outros, quando a violência vai chegando mais perto nos encontra despreparados. Londrina, a segunda cidade do Paraná, progressista, urbana, tem enfrentado, ao longo deste ano, algumas cenas de violência explícita, com elevado número de homicídios, alguns dos quais não solucionados. Não chega a ser, como ponderou uma autoridade, um índice tão elevado quanto o de Nova York ou mesmo São Paulo, mas até este comentário evidencia certo desejo de minimizar o que não deveria ser assim posto de lado.
A violência, em Londrina como em Curitiba ou São Paulo, é a mesma. E precisa ser observada com idêntica preocupação, até porque a aceitação pura e simples de tais fatos vai conturbando ainda mais o conceito individual. E tornando mais perigosa a vida de cada um.
Está faltando uma posição mais concreta por parte de todos contra este tipo de ação (ou reação). Não há como aceitar ou sequer entender o crime, sob nenhum aspecto. E a passividade com que se recebem tais eventos não é a melhor forma para tentar mudar esta realidade.
Não se trata de pretender julgar ou condenar este ou aquele que fez tal ou qual coisa, mas de modificar toda a postura com que nos colocamos diante de tais eventos. É por causa desta aceitação passiva que as maiores tragédias se registraram pelo mundo e ao longo da história.
O problema básico é o de aceitar com fatalismo que governos trucidem gente, que grupos étnicos resolvam pelo genocídio suas diferenças, que pessoas saiam por aí a atirar - e ainda a suposição de que isto acontece mesmo, que assim é o mundo e assim são os seres humanos. O desafio da civilização é precisamente o de superar tais coisas. E, mais importante ainda que isto, o desafio da segurança é o de entender que a violência, sob qualquer aspecto, é inaceitável. Caso não haja posicioamento firme a respeito, a sociedade, como um todo, corre risco de se afundar em sangue e dor.
- Estelio Feldmann é editor e editorialista na Folha de Londrina

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