Erros e teimosia da política cambial
A retomada do crescimento econômico é a grande esperança nacional, para despiorar o angustiante quadro de desemprego e pobreza que vivemos. Mas como? É a pergunta que se faz em cada esquina. De uma maneira simplificada, poderíamos dizer que a economia brasileira foi levada pelo governo nos últimos cinco anos para uma armadilha, onde sobrou como ferramenta, para reverter a situação, a política cambial. As dívidas interna e externa estão em níveis críticos; a inflação represada (não resolvida); a carga fiscal insuportável; os resultados medíocres
da política fiscal; os saldos comerciais externos inexistentes e a manutenção do nível de reservas passando dificuldades.
Para uma economia crescer precisa ocorrer a ampliação de mercados. As observações anteriores revelam o alto grau de comprometimento de nossas principais variáveis econômicas, tornando difícil encontrar soluções internas para alavancar o crescimento. Por outro lado, na frente externa, os comprometimentos se agravarão se não dermos uma virada.
O fluxo de pagamentos para o exterior tem os seguintes itens principais: A) Amortização de empréstimos, juros, remessa de dividendos, compra de serviços (seguros, fretes, turismo) e compra de mercadorias. Do outro lado, são significativos no fluxo de recebimentos: B) Tomada de novos empréstimos, investimentos estrangeiros, venda de serviços e venda de mercadorias.
Nestes números, os pagamentos representam, na sua maioria, valores relativamente rígidos, obrigando a uma dependência desesperada da renovação de empréstimos e da obtenção de novos investimentos estrangeiros, em valores anuais da ordem de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões. Para um país que exporta menos de US$ 50 bi/ano, não é fácil.
No caso brasileiro, fica claro que gerar saldos positivos no comércio externo e nos serviços turísticos é o caminho mais sadio para tentar equilibrar as contas. Não podemos esquecer que os empréstimos e os investimentos de hoje serão as amortizações, juros e dividendos de amanhã.
A tragédia das nossas contas externas mostra que, só neste ano, deveremos remeter para o exterior uns US$ 15 bilhões de juros e mais uns US$ 35 bilhões de amortizações. Para quem exportou US$ 48 bilhões em 99, é uma situação crítica. Portanto, a virada vai depender da nossa capacidade de vender mais mercadorias e serviços, gerando o máximo possível de saldos positivos nessas contas e trazendo, como consequência, a dinamização da economia interna, tanto pela substituição de importações bem como para atender o aumento das vendas externas.
Mas como fazer isto? Basta fazer na política cambial o contrário do que o governo FHC tem feito. Desde 1995, de maneira continuada e artificial, o governo atua para deixar o dólar barato diante do real. Com o dólar barato e uma das maiores taxas de juros do mundo, a economia brasileira quase foi aniquilada.
No período 1991/94, acumulamos um saldo positivo no comércio externo de mercadorias de US$ 48,7 bilhões (US$ 12,2 milhões de média anual), mas no período 1995/98 o saldo foi negativo em US$ 23,5 bilhões (-US$ 5,9 bilhões de média anual). Somando o que se deixou de ganhar com o que se perdeu (48,7+23,5), nos quatro primeiros anos do atual presidente, jogamos pelo ralo US$ 72,2 bilhões, ou seja, perto de 13% do PIB atual, isto não considerando os prejuízos indiretos. Um verdadeiro genocídio.
Depois do mal explicado episódio da liberação cambial em janeiro de 1999, quando tivemos, além de muitos escândalos ainda impunes, uma arrumação transitória da conversão cambial, estancou-se a hemorragia e a economia brasileira passou rapidamente a substituir importações e ampliar exportações, revertendo a tendência de quebras de empresas e do aumento do desemprego. Entretanto, com medo da inflação, o governo retomou a política cambial de 1995 e novamente o dólar passou a ser mantido artificialmente barato. O risco de explosão inflacionária via reajuste cambial é um mito inventado por alguns do governo. Aliás, contestado pelo IPEA e pela realidade observada em 1999.
Com a revalorização do real, imediatamente perdemos competitividade e novamente caímos na descendente da balança comercial e do crescimento. É muita incompetência do governo. Basta relembrar que nas negociações com o FMI, no início de 1999, quando a equipe econômica começou prevendo saldo positivo de US$ 11 bilhões no ano; em junho mudou para US$ 4,5 bilhões, mas o resultado foi de US$ 1,2 bilhão negativo. Para 2000, começou com US$ 5 bilhões positivos e já se fala em um déficit de até US$ 1 bilhão.
Este caminho é incompatível com a realidade brasileira. Os erros acumulados da política econômica do governo FHC nos obrigarão a gerar saldos comerciais e de serviços superiores a US$ 20 bilhões nos próximos anos, ou piorará o quadro de relações macroeconômicas. Duas coisas estão claras: 1) Os fundamentos de nossa economia estão ruins; 2) Sem acelerar a desvalorização do real para atingir rapidamente cotação próxima de R$ 2,10 por dólar, não se reativará sadiamente a economia. Dois exemplos inversos comprovam a tese: de um lado a desvalorização feita pelos japoneses na crise asiática e, de outro, as teimosias argentina e brasileira.
Sinceramente, não consigo entender os gênios de Brasília, pois todos os especialistas não chapa branca que consultei têm a mesma linha de entendimento sobre a necessidade de desvalorizar o real.
- LUIZ ANTONIO FAYET, consultor de empresas, membro do Conselho Regional de Economia do Paraná, foi deputado federal e presidente do Banco do Brasil
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