Um balanço preliminar dos três anos e meio da gestão Fernando Henrique Cardoso mostra relativo equilíbrio entre os erros e acertos. Dentre estes, destacam-se as reservas internacionais do País, hoje o nível recorde de nada menos do que US$ 72 bilhões; a estabilidade do custo de vida e a manutenção do programa de privatizações.
Dentre os erros, é preciso enumerar a crônica persistência - sem quaisquer perspectivas de diminuição para este ano - do déficit público (acrescido recentemente em mais de R$ 2 bilhões nas contas públicas referentes a 1997) e do desemprego.
Em ambos os casos, o que causa estranheza não é tanto o fenômeno em si, mas a falta de vontade política para encaminhar soluções que surtam alguns efeitos no médio prazo.
A omissão do governo nessas duas questões essenciais tem gerado um custo social insuportável para o setor produtivo, estrangulado pelo violento arrocho fiscal, e para os trabalhadores, com graves sequelas nas áreas de saúde pública, educação e Previdência Social.
Menos visíveis, mas igualmente importantes, todavia, são as questões da reforma do Estado (enxugamento da máquina) e da burocracia que, inexplicavelmente, ao invés de diminuir, só tem crescido.
A modernização do superdimensionado aparelho estatal brasileiro (União, governos estaduais e municipais e suas respectivas autarquias e empresas públicas) e a consequente agilização no seu funcionamento, um dos temas prediletos do então senador hoje presidente vem sendo sistematicamente adiada. Os pretextos para tal atitude são vários e sobejamente conhecido pelos leitores.
Nessa questão, o governo tem sido particularmente ambíguo. Com uma das mãos ele criou agências reguladoras dos serviços públicos que estão passando para a iniciativa privada (ANEEL, Anatel e ANP) e, com isso, gerou na sociedade civil expectativas otimistas quanto à futura extinção de ministérios e de estatais e também quanto à respectiva redução da burocracia e do seu custeio. Com a outra, contudo, instituiu o anacrônico Ministério Extraordinário para as Reformas Institucionais e ‘‘esqueceu’’ de informar quando ocorrerá a sua extinção.
Tal ambiguidade coloca em risco a credibilidade do governo, obtida a custa de tantos sacrifícios ao longo dos últimos três anos. Mais do que isso: ela faz renascer algumas dúvidas sobre o caráter do pretendido segundo mandato presidencial. Afinal, não se tem certeza se, após reeleito, FHC fará mesmo a tão necessária reforma do Estado, uma vez que ela colidirá com os interesses dos partidos que atualmente formam a base de sustentação do governo.
A pergunta final que fica na cabeça do leitor é se a sociedade e o País aguentam essa ambiguidade e até quando.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).

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